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Processo e tecnologia

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Retrospectiva: Fatores de influência na qualidade da impressão digital têxtil

O fôlego da tecnologia digital jato de tinta em direção ao futuro, a velocidade de transformação de uma imagem qualquer em impressão táctil e a facilidade de introdução de dados variáveis, sem adição de custo material nos arquivos, são vantagens da impressão jato de tinta em comparação ao sistema tradicional serigráfico. O que resta desenvolver e ajustar neste processo é muito mais em relação ao trabalho técnico do que com a tecnologia em si. Isso é mais verdadeiro quando se trata da reprodução de cores e definição da imagem digital impressa em tecidos. 

Hoje, há dois pontos delicados da estamparia digital que permanecem no limite do domínio técnico da Impressão Direta no Tecido (DTF), que são a reprodução de cores exatas e o detalhamento da imagem.Esses pontos guardam uma relação direta com três questões técnicas: 

1 - Variação das bases têxteis utilizadas na estamparia digital;

2 - Preparação da imagem para impressão;

3 - Preparação dos tecidos para impressão. 

Reprodução de cores exatas 

A reprodução de cores exatas é difícil em qualquer tipo de impressão.Quando se trata de substrato têxtil, é ainda mais complicado, pois os tecidos são complexos como base para deposição de uma imagem de alta definição.

A moda é inquieta porque precisa gerar desejo, atração e vendas; por isso é inventiva e criadora e requer muito dos materiais têxteis. Qualquer diferença estrutural ou de tratamento dos tecidos altera os resultados dos perfis ICC (que definem a carga de tinta para cada tipo de mídia) e, com isso, ocorre alteração substancial das cores que deveriam ser exatas. O domínio da cor exata é exigência de todos os desenvolvedores de moda, e o fornecedor de estamparia que melhor atender a esse requisito certamente será preferido pelo cliente.

Cor é um elemento sofisticado da comunicação não verbal do homem, e a preferência por tonalidades particulares externam parte das muitas personalidades da sociedade. Em um ângulo mais fechado, as tonalidades de cor são agentes de ligação direta com os comportamentos de um público-alvo. Por isso, desenvolvedores de moda são tão atentos aos elementos coloridos. São sete as cores que mais se fixaram na mente humana: azul, vermelho, amarelo, laranja, verde, violeta e preto. Por diversas razões, esse grupo é dividido em cores primárias e secundárias, em cores luz e cores de tintas. Aqui, neste artigo, nos interessam as cores de tintas. 

Tabela 1

Primárias

Azul

Magenta

Amarelo

Atonais

Preto

Cinza

Secundárias

Violeta

Verde

Laranja

Branco

São os estímulos de ondas eletromagnéticas curtas, médias e longas captadas pelas células cone.

São diferenças de iluminação e de profundidade de campo captadas pelas células bastonete.

Tonalidades totais do Círculo de Cores.

Resultado da mistura das cores primárias e secundárias com sombreamento e contraste do preto e branco.

 O restante dos estímulos coloridos são nuances das sete cores incididas de luz ou sombra. Este universo de milhares de nuances não deveria ser denominado “cores”. O mais adequado seria chamá-lo “tonalidades” ou “nuances”, porque o cérebro as classifica como simples valores tonais das sete cores.

As sete matrizes de cor resultam da evolução do olho humano primitivo – mais de 70% dos receptores de dados que entram no cérebro e no corpo estão localizados nos olhos. Daí a força da comunicação não verbal, incluindo a cor, nas relações mútuas do homem.

Para os desenvolvedores de moda, as impressoras digitais deveriam reproduzir as sete cores e todas as suas nuances, porque o espectro amplo que o olho humano percebe é importante para a comunicação sutil e rápida do objeto.  Porém, essa gama extensa, presente nos sistemas comerciais de cores, na tinturaria e na estamparia serigráfica, ainda é um problema para as configurações mais comuns de impressoras digitais. 

Cores de tintas da impressão digital têxtil 

As impressoras digitais mais difundidas são carregadas com tintas de quadricromia simples. Com a recente entrada no mercado de impressoras de seis ou mais cores para impressão direta em tecido, o Gamut (gama) foi ampliado e as tonalidades que antes eram comprimidas no CMYK simples, hoje são factíveis pela indexação de cores secundárias – laranja, e o azul Royal do RGB.

O valor dessa adição pode ser “dispensável” para os adeptos do CMYK e estamparias de DS Transfer com papel, mas a realidade que se impõe é outra.

Como já visto, a impressão controlada de Gamuts extensos é preciosa para os desenvolvedores de moda e, por essa razão, os responsáveis pela decisão e compras estão direcionando suas escolhas para os fornecedores de estampa que dominam o espectro de cores mais amplo e a melhor definição da imagem digital. 

A definição é muito importante para a comunicação na velocidade do cérebro.

A cor distinta é muito importante para clarificar a significação da mensagem.

O parâmetro de Gamut de cores dos desenvolvedores de moda e têxtil são a tinturaria e a impressão serigráfica. Elas conseguem reproduzir toda e qualquer a cor analógica - o que deixa a impressão jato de tinta digital em desvantagem. 

Tabela 2

Configuração de cores de tintas predominantes nas impressoras digitais DTF de corantes atuais.

Azul

Magenta

Amarelo

Preto

Blue

Laranja

Esta configuração mais simples vem das configurações de 8 a 10 cores de tintas, em geral CMYKKkOB. Com a evolução do conhecimento de impressão digital têxtil, as seis tintas de hoje rendem perto de 70% das escalas de cores mais conhecidas no mercado.

 No sistema anterior ampliado e no sistema atual de seis cores, faltavam e faltam várias tonalidades saturadas e de alta luz. No entanto, o resultado atual pode dispensar o segundo preto e o cinza neutro sem muito prejuízo.

Os desenvolvedores de moda e outros compradores de estamparia digital têxtil estão se rendendo ao Gamut limitado de seis cores por pura razão de custo e, ao mesmo tempo, estão se afastando da impressão de quadricromias puras, como, por exemplo, da impressão DS Transfer popular e das estamparias que ainda não chegaram ao domínio digital da cor limpa.

Cores invadidas de cinza e a dificuldade de reproduzir detalhes bem recortados são amostras típicas da insuficiência técnica da impressão como um todo, e em especial, da estamparia têxtil digital jato de tinta.  

A construção e preparação de imagens, escolha de pré-tratamentos e o ajuste dos perfis de cores às condições dos tecidos são alguns exemplos claros de insuficiência técnica. As estamparias que não conseguem imprimir Gamuts ampliados, cores chapadas e detalhamento fino passarão por filtros de mercado muito mais apertados que os becos a que foram levados neste momento.

A limitação técnica dessas empresas é um fator de alto risco para o negócio. 

Provas de cor de estamparia digital têxtil em papel

Impressoras jato de tinta profissionais para impressão de fotografia digital são o padrão atual de equipamento para prova em papel para os sistemas de offset, rotogravura, flexografia e de estamparia têxtil. Elas são carregadas com 9 ou 11 cores, e dependendo da configuração, reproduzem Gamuts extensos e maiores que os das impressoras digitais de estamparia têxtil industrial.

Além da menor quantidade de cores de tintas nas impressoras industriais, um fator influencia nas diferenças de Gamut: as impressoras de fotografia são carregadas com tintas de pigmentos e imprimem em mídias para reproduzir cores exatas e imagens altamente definidas.

O mercado de moda tem um costume: pigmentos são mais opacos que corantes e reduzem o Gamut de uma impressão realizada com as mesmas cores de corantes reativos, dispersos, e principalmente, ácidos. Apesar da diferença de transparência e opacidade entre os dois tipos de tinta (corante e pigmento), o equilíbrio de resultados entre a prova de papel, prova em tecido e estampa final é excelente.

Há uma oportunidade de melhoria no resultado das provas em papel que os desenvolvedores de estampas para tecido podem explorar: o costume de imprimir as provas de estampas em papel brilhante traz muitas dificuldades para o desenho técnico das estamparias. A dificuldade de percepção e captura é muito grande, pois papéis com brilho não se parecem com tecidos.

E quais são as consequências disso: maior tempo de trabalho, mais erros de cores estampadas, mais retrabalho e insatisfações.

As provas em papéis brilhantes são incorretas para simular o resultado da estampa impressa, por exemplo, em um tecido de viscose. As viscoses são foscas  e papéis brilhantes e semibrilhantes são mais adequados para representar sedas brilhantes e cetins, e estes não são muito presentes na estamparia de alto volume.  Esta questão é muito séria porque fere a essência do conceito de qualidade: “Entregar o que foi prometido na venda”.

As tintas de prova e de produção são as mesmas. Logo, impressoras de fotografia digital têm um futuro brilhante como equipamento para prova de impressão digital têxtil com pigmentos. A impressão digital com pigmento é uma aplicação recente, porém, tem um potencial imenso e o equipamento perfeito para prova já está pronto. 

Detalhamento da imagem digital impressa em tecido 

A nitidez da impressão digital jato de tinta em tecido se deve a vários fatores. Na Tabela 3, destacamos alguns: 

Tabela 3

Preparação da imagem.

Há muitos outros fatores que podem enobrecer ou empobrecer uma estampa têxtil, mas esses são fundamentais e devem ser tratados com muito cuidado.

Preparação do tecido para impressão digital.

Tecnologia das cabeças de impressão.

Distância entre as cabeças e o tecido

Qualidade da manutenção das impressoras e seu ambiente de trabalho.

Preparação da imagem

Imprimir com impressoras digitais é muito simples, porém, imprimir com perfeição continua exigindo o aprendizado aprofundado e constante da imagem gráfica. Todos os desenhistas sabem das diferenças de qualidade obtidas com imagens de alta resolução, mas a lei do atalho está se impondo.

Atalho aqui mantém seu significado primário: chegar a um lugar com menos tempo. Mas há atalhos muito positivos e negativos.

Na impressão, o atalho pode gerar descontrole, por exemplo, da qualidade final do produto impresso. No desenho técnico das estamparias, há uma lista longa de atalhos prejudiciais, gerada pelo desenho, como: arquivos com sujeira de fundo e restos de imagens; baixa resolução misturada com alta resolução em um mesmo arquivo; imagens de resolução baixa ampliada para alta, imagens de baixa qualidade; raports incorretos etc.

Desenhos nessas condições consomem, em média, quatro horas de trabalho de um desenhista técnico somente para ajustar o arquivo a um resultado de impressão menos prejudicado. Nos salários do Brasil de hoje, quatro horas de trabalho técnico custam cerca de R$ 100 e, no final das contas, esse valor torna-se elevado, considerando que uma estamparia de alta qualidade processa mensalmente cerca de mil arquivos, dentre os quais, há desenhos com muitas falhas. 

Preparação do tecido para estamparia digital 

Diferentemente da impressão analógica em tecido, impressão em papel e outros substratos, a impressão digital têxtil demanda superfícies de substratos receptivas a cada tipo de tinta. No caso dos têxteis, há uma questão a mais que interfere no rendimento geral da qualidade da impressão e fixação das tintas no artigo: fibras e tintas devem manter afinidade química entre si e com seus promotores de adesão. Promotores de adesão derivam de dois grupos químicos diferentes: mordentes para corantes reativos e ácidos e resinas filmógenas para pigmentos.

Tecidos de poliéster não precisam de mordentes para fixar as tintas. O próprio poliéster recebe e enclausura o corante disperso por outros mecanismos. No entanto, como em todos os tecidos para impressão digital jato de tinta DTF, o poliéster também demanda pré-tratamento para segurar as tintas nas suas posições e margens exatas, de modo que a espessura de traços e tonalidades de cores não migrem, não sangrem e não percam o contraste e brilho original (controle de ganho de ponto).

Resinas filmógenas são utilizadas na impressão com pigmentos porque estes não têm afinidade com substratos. Para aderirem e permanecerem com resistência à esfregação e à lavação, eles devem ser enclausurados em filmes temofixos ou termoplásticos resistentes à umidade.

Tratamentos para recepção de tintas digitais viabilizaram o funcionamento de Rips e perfis de cores na estamparia digital têxtil e abriram caminho para várias novas aplicações da impressão jato de tinta. Recentemente, tornaram possível a impressão de vários substratos complexos com tintas de água pigmentadas, incluindo filmes de poliéster, PVC e filmes BOPP utilizados em rótulos, etiquetas e embalagens.

No mercado têxtil, pré-tratamentos especializados são a porta para a próxima revolução da impressão têxtil – a estamparia de pigmentos sem contaminantes e baixíssimos efluentes, aplicada principalmente em artigos do lar como roupas de cama, mesa, revestimentos, móveis e decoração. Cabeças de impressão Grayscale, com pontos variáveis e circulação interna de tinta, tem sido o padrão atual para impressão jato de tinta industrial. Esta tecnologia reduziu a ocorrência dos dois maiores problemas da impressão digital que são a igualização de impressão e os entupimentos das cabeças. A tecnologia também estabilizou a capacidade de impressão de fundos contínuos, degradés e cores spot (pantone) regulares, sem bandas e riscos no sentido da trama do tecido (igualização).

A menos de dois anos era temerário estampar chapados e degradés, sem muitos defeitos e bandas, em impressoras jato de tinta. Hoje, a realização de estampas com fundo spot e degradés limpos continua sendo complicada somente para as estamparias que ainda não dominaram os processos de preparação de imagens, de tecidos e de configurações de impressoras. 

Conservação do ambiente da impressão digital

Trabalho limpo das cabeças de impressão, ciclos precisos e rápidos de trabalho, igualização de cor e muitos outros fatos importantes da estamparia digital têxtil estão diretamente ligados à manutenção da impressora e o ambiente de trabalho onde ela opera.

Limpeza é a chave para que a cabeça de impressão dure muito tempo e que imprima regularmente, mantendo a definição e reprodução de cores. A cabeça de impressão é a parte mais importante da tecnologia digital jato de tinta, e tudo depende dela.

É um dispositivo sensível, caro e tecnológico, com alta sensibilidade à contaminações físicas e químicas e alterações do ambiente. O ambiente de impressão em si é gerador de todos os perigos para a cabeça de impressão e para o conjunto de circuitos, placas e outros itens das impressoras digitais. Partículas e gases em suspensão são muito perigosos para os equipamentos e para os humanos que nele trabalham. Questões simples como a variação de umidade e temperatura do ambiente, alteram o rendimento dos circuitos e das cabeças de impressão. Por essa e por outras razões, a atenção ao ambiente e seus ocupantes humanos e tecnológicos deve ser permanente.

Regulagem da distância entre as cabeças e o tecido também faz parte da manutenção e influi diretamente na qualidade na reprodução dos detalhes finos da estampa. A tolerância de distância varia conforme as tecnologias das diferentes cabeças – cabeças de tecnologia padrão trabalham na distância variável de 2 e 4 mm, enquanto tecnologias diferenciadas trabalham com até 6 mm. 

O Portal Textília.net não autoriza a reprodução total ou parcial de qualquer conteúdo aqui publicado, sem prévia e expressa autorização. Infrações sujeitas a sanções.

Autor: Herculano Ferreira
Fotos: Herculano Ferreira

Data de publicação: 15/12/2017

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