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Acabamento, Tingimento, Estamparia e Lavanderias

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Substâncias nocivas em artigos têxteis

As substâncias químicas nocivas presentes em alguns artigos têxteis tem sido motivo de preocupação para empresas , governos e organizações em diversos países.  Muitas normas, regulamentações e certificações estão sendo criadas  e constantemente atualizadas, tudo visando  a proteção de pessoas e a obtenção de produtos modernos e funcionais,  mas sem serem prejudiciais a saúde dos seres humanos.  Vestir uma peça e ter confiança de que ela não irá causar uma irritação na pele, nem que tenha algum químico potencialmente cancerígeno, ou que possa afetar o sistema nervoso central, ou os hormônios, por exemplo,  já é o desejo de alguns consumidores bem informados em países desenvolvidos.

Organizações não governamentais se movimentam através de ações visando o banimento de substâncias tóxicas na cadeia produtiva. Governos baixam regulamentações específicas tais como: 

  • REACH (Registration, Evaluation, Authorisation and Restriction of Chemicals – Registro, Avaliação, Autorização e Restrição de Substâncias Químicas) da Comunidade Europeia  
  • CPSIA (Consumer Product Safety Improvement Act - Lei de Melhoria da Segurança de Produtos de Consumo ) nos Estados Unidos
  • CCPSA (Canada Consumer Product Safety Act – Lei de segurança de produtos de consumo do Canadá)
  • GB 18401-2010 (Guobiao Standards) na China
  • NOM-004:2006 - Norma oficial Mexicana
  • Law 112 - Japão 

Além da legislação, certificações de caráter voluntário como Oeko-Tex®, Blue Angel, Toxproof, EU flower,  LGA tested for toxins,  Blue sign, Best&Better também são bons exemplos de esforços no sentido de se identificar têxteis mais confiáveis.

Aqui no Brasil as certificações internacionais ainda são pouco usadas, mas existem algumas poucas empresas certificadas, especialmente com o selo Oeko-tex®, que é o mais reconhecido mundialmente. Quanto às normas e legislação, não temos, por enquanto, nada específico para os artigos têxteis em geral. A ABNT dá os primeiros passos, através de comitê de Normalização Têxtil e do Vestuário com uma comissão de estudos dedicada a Acabamentos e Química Têxtil que irá desenvolver as normas brasileiras para a determinação de substâncias nocivas em têxteis. 

Desenvolvimento 

Sabe-se que a utilização de substâncias químicas é necessária em diversas fases do processo têxtil. No caso do algodão, por exemplo, começa desde a plantação com o uso de fertilizantes,  passando depois por várias etapas  do processamento do tecido ou da malha que podem usar produtos químicos nocivos a saúde. Da mesma forma para o beneficiamento de artigos feitos com fibras artificiais  e sintéticas, o uso de corantes, amaciantes, produtos auxiliares, enfim uma grande quantidade de substâncias químicas faz parte do processo têxtil. Um dos problemas pode ser, por exemplo,  na fase de beneficiamento, o uso de produtos destinados a conferir ao artigo determinadas características e funcionalidades, tais como impermeabilização , repelência a óleo, efeito bactericida, ou resistência ao fogo, só para mencionar alguns exemplos. A escolha dos produtos químicos mais adequados e não tóxicos pode fazer toda diferença no produto final.  Uma escolha baseada somente em preço, sem levar em consideração consequências futuras poderá prejudicar o consumidor final do produto, além de manchar a imagem da marca. 

Dentre os objetivos do REACH está a tarefa de estabelecer um sistema de registro coerente, concebido para fornecer informações de risco e de perigo a respeito de substâncias químicas produzidas ou importadas para a união europeia. Dentre as substâncias as CMR (cancerígenas, mutagênicas e tóxicas para a reprodução); as substâncias PBT (persistentes, biocumuláveis e tóxicas) ; as substâncias mPmB (muito persistentes, muito biocumuláveis) e certas substâncias preocupantes com efeitos graves e irreversíveis no ser humano (sistema endócrino) e no meio ambiente.

No anexo XVII do REACH estão listadas 63 substâncias restritas organizadas por grupos da seguinte maneira: retardantes de chama, organoestanhados, cádmio, níquel, aminas derivadas de corantes azo, corante azul, PAH’s, Ftalatos (BBP, DBP, DEHP, DNOP, DINP, DIDP) e Dimetilfumarato.

Uma outra lista do REACH é a chamada SVHC (Substance of Very High Concern) que menciona as substâncias com elevado grau de preocupação, que contém 151 substâncias listadas. E no anexo XIV a lista de autorização. 

A regulamentação americana, cuja sigla é CPSIA, é aplicável para todos os artigos que se destinam a crianças até 12 anos. Nela tem-se a restrição para a quantidade de chumbo total, chumbo em tintas e revestimentos e restrições quanto a quantidade de Ftalatos, só para mencionar dois exemplos. Também nos Estados Unidos, mais especificamente o estado da Califórnia tem uma legislação específica denominada “right to know” – que diz que o consumidor “tem o direito de saber se nos produtos que usa existem substâncias que podem causar danos a saúde”; a lista tem cerca de 900 substâncias.

A regulamentação da China GB18401 (Chinas’s National General Safety Technical Code) limita as quantidades de formaldeído, valores de pH, índice de solidez , etc.

O Japão com sua Law112 (Law of the control os Household Products Containing Harmful Substances), restringe o uso de dicloro,  trifluor, tributil, formaldeído, compostos orgânicos com mercúrio, e outros.

Além das regulamentações de cada país, diversas grandes marcas e varejistas, tais como Nike e Adidas, C&A, H&M e Zara, dentre outras, possuem suas próprias listas de substâncias perigosas, as chamadas RSL (Restrict Substance List). 

Testar todos os produtos e todos os componentes pode-se dizer que é fácil, apesar de muito caro, por isso alternativas estão disponíveis, dentre elas a certificação de produtos e processos. A certificação mais conhecida neste caso é a Certificação Oekotex®; nela um conjunto de parâmetros são analisados através de ensaios laboratoriais. A metodologia de ensaio baseia-se em testes de simulação das diferentes possíveis formas de absorção de substâncias químicas pelo corpo, ou seja: absorção pela pele (através de solução de suor sintético), absorção oral (solução de saliva sintética)  e absorção através do olfato. Os parâmetros que fazem parte da lista de critérios Oeko-tex® são: concentração máxima de aminas proibidas de corantes Azo, corantes cancerígenos ou provocadores de alergias, formaldeído, pesticidas, fenóis clorados, benzenos e toluenos clorados, metais pesados extratáveis, solidez de cor, valor pH, ftalatos, compostos organoestanhados, emissões de compostos voláteis, cheiro, produtos biologicamente ativos e os retardantes de chama.

A certificação Oeko-tex® é um sistema voluntário de certificação e já é bastante conhecido na Ásia e na Europa. Ele ajuda as empresas a controlarem seus processos produtivos e suas matérias primas. Como é um sistema modular, ou seja, produtos têxteis de diferentes etapas do processo têxtil podem ser certificados, as empresas que estão na ponta da cadeia (as confecções ou varejistas) podem se beneficiar quando usam componentes certificados, pois menos ensaios terão que ser realizados, além de gerar relação de confiança entre cliente fornecedor.  Alguns institutos no mundo estão preparados e autorizados a realizarem os testes em seus laboratórios usando a metodologia Oeko-tex® standard 100. 

Conclusão

Apesar de várias substâncias nocivas provavelmente ainda estarem presentes nas roupas que compramos e usamos no nosso dia a dia, ações e providências estão sendo tomadas pelo mundo afora para que isto não continue a ocorrer.

Os fatores de mudança no cenário poderão ter diferentes razões, tais como: vontade própria do produtor,  força da legislação, necessidade de se adaptar para fornecer para mercado externo, clientes locais mais exigentes, pressão do consumidor, influência de organizações não governamentais e assim por diante.

O uso de certificações que facilitem o controle de processos e de matérias primas e beneficiem a relação comercial entre empresas parece ser uma boa alternativa; o contínuo aumento do número de produtos certificados, especialmente em países da Ásia e da Europa, é uma confirmação disto.

De qualquer maneira toda cadeia têxtil terá que se movimentar e encontrar melhores soluções para produção de artigos mais confiáveis e não nocivos à saúde do consumidor final. 

Fonte bibliográfica:

Workshop CITEVE –Toxicidade, Performance, Sustentabilidade na Indústria Têxtil e de Confecção – 14/abril/2014 – São Paulo.

http://echa.europa.eu/pt/regulations/reach/

http://www.citeve.pt/artigo/oeko_tex

 

O Portal Textília.net não autoriza a reprodução total ou parcial de qualquer conteúdo aqui publicado, sem prévia e expressa autorização. Infrações sujeitas a sanções.

Por: Regina Guidon de Assis
Fotos: Regina Guidon de Assis

*Publicado na revista Textilia Texteis Interamericanos - edição 93

Data de publicação: 03/09/2014

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