Indústria brasileira sob pressão
A luz amarela acendeu na indústria brasileira. O setor de bens de capital acumulou, nos primeiros três meses do ano, um déficit de 7,5% superior ao verificado no mesmo período de 2011. De acordo com Luiz Aubert Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o resultado só não foi pior em razão do bom desempenho das exportações no primeiro trimestre, mais especificamente no mês de março, que tiveram um crescimento de 29,4% em comparação com o mês de março de 2011. “O segmento de máquinas agrícolas continua apresentando crescimento significativo e, juntamente com o setor de bens sob encomenda, tem puxado o desempenho positivo da indústria de bens de capital mecânicos, em 2012. Já os setores de máquinas têxteis, máquinas para plás ticos, madeira e máquinas-ferramenta continuam apresentando quedas no nível de faturamento em comparação com os resultados de 2011”, analisa o dirigente da Abimaq.
Engenheiro mecânico de produção, graduado pela FEI, com pós-graduação em Administração Financeira e Contábil pela CEAG/FGV, Luiz Aubert Neto trabalhou na Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) e na vice-presidência do Banco Itaú. Em 1987, passou a atuar na Aubert Engrenagens, empresa familiar criada em 1950 por seu avô Luiz Celestino Aubert e seu pai, Nelson Aubert (ambos já falecidos). Especializada na fabricação de engrenagens e redutores para as indústrias naval, metalúrgica, mineradora, siderúrgica, entre outras, a empresa atualmente é dirigida por Luiz e seu irmão, Walter Aubert. Com experiência acumulada de mais de 25 anos no comando de uma indústria, Aubert Neto trabalhou dentro da Abimaq, tendo sido eleito por três vezes consecutivas como presidente de câmara setorial (de 1995 a 2001), além de ter sido vice-presidente nas duas últimas gestões. Apesar de discreto em suas atitudes, Luiz Aubert Neto não hesitou em subir no palanque, vestir a camisa e discursar em defesa da indústria. O empresário, que estava entre os participantes do protesto que reuniu milhares de pessoas em São Paulo, considera que o movimento “Grito de Alerta” foi positivo. “Ele levou o tema da desindustrialização para a grande imprensa, para os formadores de opinião e também ao Governo”. O dirigente diz ainda que as medidas anunciadas depois de todo o barulho da indústria contra os importados foram positivas. Mas ainda há muito a fazer. O setor de bens de capital fechou o mês de março com o total de 259.440 trabalhadores registrados, resultado 1,3% inferior ao mês de fevereiro.
Em março, porém, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) e o número de semanas para o atendimento dos pedidos em carteira conseguiram alcançar resultados mais favoráveis dos que os verificados em fevereiro. “Apesar da ligeira retomada, essa recuperação conseguiu apenas aplacar as quedas expressivas verificadas nos últimos meses”, avalia Aubert Neto. Para falar sobre a situação da indústria de bens de capital, o presidente da Abimaq nos concedeu esta entrevista, por e-mail. Confira.
Textília: Porque o Brasil corre risco de desindustrialização?
Luiz Aubert Neto: Há quatro anos, nós da Abimaq já falávamos dos perigos do processo de desindustrialização em curso no Brasil. Éramos uma voz solitária. Hoje, com toda essa invasão de importados, principalmente dos chineses, há muito mais setores sofrendo com o aumento do volume de importação no País. Em 2004, de cada 100 máquinas consumidas, 60 eram fabricadas no Brasil e o restante nos outros países. Hoje isso se inverteu: de cada 100 máquinas, apenas 40 são produzidas no mercado doméstico e ainda com um agravante adicional, que é o menor índice de nacionalização. Outro fator importante é a redução contínua da participação da indústria de transformação no PIB. Em 2004, ela representava 19,2% e no passado estava em 14,6%. A perda de emprego e principalmente a substituição da produção local por importados evidenciam que a indústria de máquinas nacional não acompanha a evolução da economia brasileira.
Textília: Qual foi o resultado do setor de bens de capital nos três primeiros meses de 2012?
Luiz Aubert Neto: A indústria teve um faturamento bruto real de R$ 19,5 bilhões, ou seja, 5,1% maior quando comparado com o mesmo período de 2011. Esse resultado foi influenciado significativamente pelo crescimento das exportações, uma vez que o mercado interno permaneceu praticamente estável em relação ao primeiro trimestre de 2011. O déficit da balança comercial saltou para US$ 4,4 bilhões, valor 7,5% superior ao mesmo período do ano passado. O setor só não teve desempenho pior devido ao aumento nas exportações.
Textília: Como se comportaram estas exportações?
Luiz Aubert Neto: Mais especificamente no mês de março, as exportações tiveram um crescimento de 29,4% em comparação com o mês de março de 2011, enquanto no mesmo período, as importações caíram 1,5%. As exportações continuam sendo impulsionadas pelas transações intercompany. Os grupos que apresentaram as maiores contribuições para o crescimento dessa variável, comparando com os três primeiros meses do ano passado, foram as máquinas para a indústria de transformação, máquinas para logística e construção civil. A América Latina representa o principal destino das exportações de bens de capital, porém sua participação no total exportado tem perdido força nos últimos meses, inclusive o resultado do Mercosul passou de 41% no primeiro trimestre de 2011 para 33% em 2012.
Textília: E as importações? De onde vêm?
Luiz Aubert Neto: Os grupos que apresentaram crescimento mais expressivo foram os de máquinas para agricultura, máquinas para logística e construção civil, além de máquinas para a indústria de transformação. Os Estados Unidos, China e Alemanha representam as principais origens das importações de máquinas e equipamentos, no entanto, os chineses já ocupavam a 10ª posição no ano de 2004 e ao longo dos anos foi conquistando um espaço cada vez maior no mercado brasileiro.
Textília: Como o senhor avalia o mercado de máquinas no Brasil atualmente?
Luiz Aubert Neto: O consumo aparente, que representa o consumo total de máquinas e equipamentos no mercado nacional, fechou em R$ 26,0 bilhões, resultado 8,4% superior ao do primeiro trimestre do ano passado, sendo que os importados representaram 58% desse valor, seguido do mercado interno (28%) e da revenda e incorporação à produção de bens de capital importados (14%), o que evidencia a forte participação dos produtos importados no mercado doméstico.
Textília: Abimaq participou ativamente no manifesto “Grito de Alerta”. Quais foram os resultados práticos do movimento?
Luiz Aubert Neto: O principal resultado foi ter levado o tema da desindustrialização para a grande imprensa, formadores de opinião e ao Governo. Notamos que, depois das manifestações, o Governo começou a agir e baixou as taxas de juros da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil. Esperamos que sejam tomadas outras medidas para oferecer melhores condições aos fabricantes brasileiros de competir com a invasão dos produtos importados. A indústria nacional é competitiva apenas do portão para dentro. Do portão para fora, sofremos com a série de tributos, câmbio desfavorável e altas taxas de juros para financiamento.
Textília: Com a aprovação da Resolução 72, o senhor acha que as importações vão se reduzir?
Luiz Aubert Neto: Vamos deixar de estimular a importação de produtos e a “exportação de empregos” para outros países. Com os benefícios oferecidos por alguns estados brasileiros aos importadores, os fabricantes de bens de capital ficavam de mãos atadas, sem poder concorrer, porque o Brasil é o único país que tributa investimento. Veja, não queremos benefícios, mas sim condições igualitárias para poder competir. Agora, cabe lembrar que isso (a medida) é apenas um passo adiante em uma longa caminhada que o País precisa fazer. Acabou um problema, mas permanecem os outros, como a infraestrutura deficiente e a elevada carga tributária.
Textília: Que medidas positivas para a indústria trouxe o Plano Brasil II anunciado recentemente?
Luiz Aubert Neto: As medidas anunciadas são uma sinalização de que o Governo reconhece o processo de desindustrialização já vivenciado pela indústria de transformação. O anúncio dessas medidas é bom para a indústria, contudo, como já disse, não resolve os problemas de imediato, pois os grandes vilões da perda de competitividade são o real extremamente valorizado, os juros altos e o Custo Brasil, que também precisam ser combatidos com urgência. Sem dúvida, a desoneração da folha de pagamentos é a medida mais importante para o setor de máquinas. Como 30% do faturamento do setor é proveniente das exportações, a medida, de fato, significará um alívio tributário. Além disso, destaco também a redução das taxas de juros nas linhas de financiamento do BNDES, muito utilizado por nossos clientes para a compra de máquinas e equipamentos.
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Texto: Márcia Mariano
Foto: Imprensa Abimaq
Data de publicação: 26/06/2012







