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Indústria brasileira precisa se digitalizar com urgência

De 24 setores da indústria brasileira, 14 precisam adotar com urgência estratégias de digitalização para se tornarem internacionalmente competitivos. É o que relata o mais recente estudo da CNI – Confederação Nacional da Indústria, apresentado durante o III Fórum de Manufatura, realizado nos dias 19 e 20 de março, em São Paulo. O setor têxtil/vestuário está entre os mais vulneráveis, ao lado de calçados, químicos, máquinas e equipamentos, entre outros.

Aos que ainda não se convenceram de que a "Manufatura Avançada" não é futurismo ou ficção, o gerente de política industrial da CNI, João Emilio Gonçalves, alerta: "A chegada da Indústria 4.0 será muito mais rápida do que todas as revoluções industriais anteriores. Por essa razão, as principais nações industrializadas do mundo já inseriram a manufatura avançada no centro de suas estratégias de política industrial, visando aumentar sua competitividade. O Brasil precisa com urgência se adequar a essa realidade, pois sua capacidade de competir internacionalmente dependerá desta transformação". O executivo participou do Painel de Abertura do Fórum, que abordou as perspectivas econômicas, de mercado e tecnológica para a retomada da indústria brasileira nos próximos anos.

Nova fronteira

Durante a plenária, que reuniu cerca de 200 empresários, executivos e profissionais de diversas áreas, o debate gerou em torno da Indústria 4.0, nova fronteira da produção industrial que tornará a forma de como se produz hoje totalmente obsoleta em poucos anos. As principais tecnologias envolvidas nesta revolução são: internet das coisas (IoT), robótica, impressão 3D, big data, computação na nuvem, inteligência artificial e sistemas de simulação virtual. Segundo o estudo da CNI, a principal diferença em relação às demais revoluções industriais pelas quais o mundo já passou, está na velocidade das transformações produzidas pela digitalização.

É bom lembrar que a primeira revolução, a 1.0, começou a cerca de 230 anos, quando James Watt inventou a máquina à vapor que, curiosamente, deu um grande impulso à indústria têxtil no século 18, que passou a ser mecanizada. A segunda revolução, a 2.0, aconteceu no início do século 20, com a introdução da linha de montagem, que permitiu a produção padronizada em escala, e a revolução 3.0 aconteceu a partir da década de 1970, com a introdução do CNC (Comando Numérico Computadorizado) nos centros de usinagem e máquinas automatizadas. Agora, a indústria 4.0, cujo conceito surgiu em 2011 na Alemanha, propõe informatizar as fábricas, promovendo uma integração horizontal na produção. Isto é possível graças à integração das tecnologias avançadas (já citadas) que permitirá, por exemplo, que máquinas "conversem" com máquinas ao longo das operações industriais, enxugando etapas de processo, eliminando retrabalho e intervenção humana e possibilitando uma perspectiva inimaginável para o desenvolvimento de novos produtos e serviços.

Gargalos para implantação

A pesquisa da CNI, realizada com 2.225 empresas de todos os portes entre 4 e 13 de janeiro de 2016, identificou o uso das tecnologias digitais em diferentes estágios da cadeia industrial. Segundo o relatório: "A maior parte dos esforços feitos pela indústria no Brasil está na fase dos processos industriais. Setenta e três por cento das que afirmaram usar, ao menos, uma tecnologia digital o fazem na etapa de processos. Outras 47% utilizam na etapa de desenvolvimento da cadeia produtiva e apenas 33% em novos produtos e novos negócios".

O principal motivo para as indústrias buscarem tecnologias digitais está no aumento da eficiência, já que em geral, de acordo com a pesquisa da CNI, a indústria brasileira apresenta produtividade inferior à média internacional e baixa inserção no comércio exterior. "Dado o gap de produtividade atual, muitos setores sofrerão cada vez mais com a concorrência internacional, por isso, a adoção da digitalização é fundamental", enfatiza João Emílio Gonçalves, gerente de política industrial da CNI.

Porém, o problema não está só na deficiência da indústria, mas também na falta de ações do governo para liderar uma Agenda de Inovação e Competitividade. "No Brasil, há muita dificuldade para se coordenar ações de governo. É preciso uma política industrial que dê suporte à indústria para que ela possa crescer e inovar", destacou Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, acrescentando que a instituição possui programas de cooperação que apoiam as empresas na área de Pesquisa e Desenvolvimento para criação de produtos e processos inovadores. "Em 20 anos já atendemos 1.200 empresas sendo que em 2017, aumentou significativamente o número de startups com foco em manufatura avançada e big data". Segundo ele, hoje existem 12 propostas sobre manufatura avançada, solicitadas pela indústria paulista. "Nós sugerimos que as empresas se organizem em consórcio e façam parcerias com centros acadêmicos para viabilizarem os projetos, mas, diferentemente de outros países, no Brasil temos poucas iniciativas consorciadas".

O Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) e o Programa Fapesp Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) desembolsaram, em 2015, mais de R$ 118 milhões em fomento para empresas. Além de poucos recursos para investimento em pesquisa e inovação, e da falta de cultura associativa para viabilizar novos projetos, a indústria brasileira ainda enfrenta o maior dos desafios: a falta de infraestrutura para implantação da indústria 4.0. Para os especialistas que participaram do Fórum, a carência abrange desde a baixa escolaridade, falta de profissionais especializados no mercado e dificuldades das telecomunicações no País, afinal, sem internet rápida e acessível, fica difícil pensar em "internet das coisas".

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Por: Marcia Mariano
Fotos: Marcia Mariano

Data de publicação: 23/03/2018

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