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Produtividade na indústria é fator crítico para o desenvolvimento sustentável

Na última live de 2021 promovida pela Abit – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, o presidente da entidade, Fernando Pimentel, abordou sobre produtividade no pós-pandemia com três convidados: Samantha Cunha, gerente de Política Industrial da CNI; Marcos De Marchi, diretor-presidente do Grupo Vicunha e Jairo Amorim, diretor executivo industrial do Grupo Riachuelo/Guararapes, que foram unânimes ao concluir que não há desenvolvimento sustentável sem ações de estímulo à produção.

Pimentel abriu o painel afirmando que só conseguimos tracionar a economia através da produtividade dos fatores de produção, ao que Samantha Cunha concordou, acrescentando: “A população mundial está crescendo e a oferta de trabalho formal tende a reduzir. Buscar ganhos de produtividade e inovação é melhor meio para a manutenção e competitividade do setor industrial”. A executiva da CNI – Confederação Nacional da Indústria, disse que a inovação pode acontecer por meio da adoção de novas práticas gerenciais como a manufatura enxuta - avanço tecnológico com a mudança nas máquinas e equipamentos; a escolha criteriosa de insumos e matérias-primas e a excelência no design e na qualidade dos produtos. “Tudo isso são fatores que podem melhorar continuamente a produtividade no Brasil”, enfatizou.

Desaceleração econômica

De acordo com a análise da CNI, nos últimos quatro anos, a produtividade no País ficou praticamente estagnada. Entre 2017 e 2020 a produtividade do trabalho na indústria de transformação cresceu em média 0,3% ao ano. Em 2020, ano marcado pela crise econômica causada pela Covid-19, o resultado foi negativo, porém, antes da pandemia, o Brasil já vinha em processo de desaceleração da produtividade. No período 2014-2016, enfrentou dois anos de recessão, com queda do PIB acentuada em 2015 e 2016. Após esse período de turbulência político e econômica, as empresas reagiram para sair da crise e elevaram a produtividade com investimentos de baixo custo e sem muita mudança em seus sistemas de gestão, quando deveriam ter investido pesado em tecnologia. “As empresas mais produtivas permaneceram no mercado e isso fez a produtividade aumentar um pouco, mas depois dessa reação, quando se precisava realizar investimentos mais pesados em máquinas e inovação tecnológica, o ritmo de crescimento da economia começou a cair”, pontua Samantha Cunha.

Visão atual

Entre 2018 e 2019, mesmo com o arrefecimento da crise, o Brasil cresceu abaixo de 1%, desestimulando investimentos mais arrojados. “Desde 2020 – quando o Brasil e o mundo foram golpeados pela crise sanitária – até agora, a produtividade do trabalho despencou em mais de 7%, ou seja, temos tido queda pelo segundo ano consecutivo – 2020/2021”. Na avaliação de Samantha, essa é a maior queda no indicador da CNI desde 2000. Em sua apresentação, ela lembra que em 2008, quando o mundo também enfrentou uma crise financeira global – iniciada nos EUA – a queda da produtividade foi de 2,2%. A executiva da CNI acrescenta: “Em 2021, a queda deve se aproximar de 3%. Hoje temos uma forte pressão sobre os custos de produção. Para sair desta situação é preciso enfrentar os problemas causados pela Covid 19. A indústria lida com dificuldades como a falta de insumos, aumento do frete, etc,. e o atual cenário de incerteza não é propício aos investimentos para que a produtividade volte a crescer.”

De acordo com a especialista da CNI, passado esse gargalo pós-pandemia, a indústria terá que enfrentar problemas antigos como o Custo Brasil, que dificulta e muito a sua competividade no mercado, devido a diversos fatores apontados pelo ela, entre os quais: deficiência em infraestrutura, baixa qualidade da educação e sistema tributário complexo e oneroso.

Samantha Cunha reafirma que o problema macro deverá ser enfrentado por todo o setor produtivo e que, além de buscar melhoria no ambiente de negócios, também terá outro desafio, que é investir nas novas tecnologias digitais, inovação e pesquisa, afinal, o mundo caminha para a produção cada vez mais sustentável, com baixa emissão de carbono, reutilização de matérias-primas, economia de energia e recursos naturais, transparência e boas práticas de gestão. Tudo isso é um desafio a ser superado pelas empresas brasileiras e segundo a executiva da CNI, “ainda estamos atrasados frente a outros países”.

Ilhas de excelência  

Marcos de Marchi, diretor-presidente do Grupo Vicunha, concordou com a análise da CNI e lembrou de outro gargalo no Brasil: o crédito caro e escasso. O executivo afirmou que apesar da crise da pandemia, a Vicunha cresceu em 2021, mas não revelou números. Disse que a companhia já vinha num processo de transformação, investindo em sistemas de informação, tecnologia de ponta na produção, formação de técnicos e na sustentabilidade de seus processos. “A Vicunha possui quase 6 mil funcionários, mesmo sendo uma empresa automatizada nos estágios de preparação, fiação e tecelagem. Nas áreas de beneficiamento, a economia de água chega a 98% e também utilizamos matéria-prima reciclada para produção de fios de poliéster e viscose e algodão certificado. Somos uma empresa que investe constantemente em inovação e sustentabilidade”. Segundo ele, a Vicunha tem hoje 12 certificações nacionais e internacionais, tanto referentes à produção limpa quanto a práticas de gestão e é uma das indústrias de denim mais competitivas do mundo.

O Grupo Guararapes é a maior empresa de moda do Brasil, com uma operação que atualmente engloba: a rede varejista Riachuelo, com e-commerce e mais de 300 lojas físicas espalhadas por todo o território nacional, duas fábricas, em Natal e em Fortaleza, a Midway Financeira, três centros de distribuição (CDs), em Guarulhos, Natal e Manaus, gerando ao todo 40 mil empregos. Só nas fábricas têxteis de Natal e Fortaleza, são 12 mil empregos diretos. Para Jairo Amorim, diretor executivo industrial do Grupo Riachuelo/Guararapes, os gargalos macroeconômicos são os principais responsáveis pela baixa produtividade da indústria brasileira.

Ele cita como exemplo, além dos altos custos de energia e a carga tributária, a dificuldade de fornecedores de confecção no Brasil para atender a demanda do varejo. Para superar esse problema, a Riachuelo tem focado nos programas de treinamento intensivo de mão de obra. Entre estas ações, destaque para o programa Pró-Sertão, criado para incentivar a geração de empregos no semiárido do Rio Grande do Norte, e que hoje mantém 99 oficinas de costura trabalhando para o Grupo.

O programa é fruto de uma bem-sucedida parceria com o Senai e o governo estadual e já resultou na contratação de 3 mil costureiras que trabalham na confecção de jeans. “Consumimos 63 mil metros de tecido denim e sarja por dia para produzir vestuário e geramos oportunidades que beneficiam indiretamente cerca de 50 mil pessoas”, destaca Jairo Amorim. Segundo ele, durante o pico da pandemia, em 2020, a Riachuelo teve que fechar suas 362 lojas no Brasil. “Foi um momento difícil, pois também paralisamos as fábricas, num momento em que vínhamos dando saltos de produtividade. Sem varejo, não há indústria. Todavia, não ficamos parados durante a crise, ao contrário, aceleramos o processo de digitalização do varejo através do e-commerce, bem como fizemos um trabalho de reengenharia de processo na fábrica, investindo em treinamento e qualificação dos nossos funcionários.  A Riachuelo/Guararapes cresceu 65% em produtividade em 2020, apesar de ter sido um ano de crise. Foi um resultado próximo do de 2019, quando batemos recorde de produtividade.”, relata Jairo Amorim.

O diretor do Grupo Riachuelo/Guararapes está otimista quanto a 2022. A seu ver, ainda que a pandemia não tenha sido de todo debelada, a vacinação tem colaborado para a retomada dos negócios e apontado para uma recuperação gradual da economia.

Para além do enfrentamento do coronavírus, o Brasil precisa ter metas de crescimento ambiciosas para atrair investimentos e impulsionar a produção industrial. De acordo com Samantha Cunha, da CNI, o país ainda deixa muito a desejar em produtividade e competitividade. “Pelo parque industrial que possui, não estamos bem colocados frente a outros países. Em 2020 (resultado colhido em 2019) a indústria brasileira ocupava a 14ª posição no mundo em produção e exportação.”, atesta.

Enfim, os participantes do encontro concordaram que o Brasil não pode só viver do agronegócio. A indústria de transformação é fundamental para o crescimento e desenvolvimento da economia brasileira. Porém, para evitar perda de relevância, a indústria precisa se atentar para as novas tendências de padrão de consumo, agregar valor aos seus produtos, abraçar a digitalização e trazer inovação e tecnologia para dentro de suas fábricas, como fizeram Vicunha e Riachuelo. Só desta maneira, a indústria conseguirá atrair bons profissionais e, logicamente, aumentar sua produtividade.

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Por: Marcia Mariano
Fotos: Divulgação

Data de publicação: 20/12/2021

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