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O futuro do têxtil chega ao mercado

Em visita ao Brasil este ano, o executivo Giuseppe Gherzi apresentou durante evento do setor em São Paulo uma palestra disputada, falando sobre a indústria 4.0 e o mercado global têxtil e de confecção. À frente da Gherzi, consultoria global com sede na Suíça, sua visão é importante para o mercado porque é baseada em observações e análises feitas sobre dados fidedignos, dando um panorama sobre os rumos tomados pelo mercado têxtil e de confecção no presente  e no futuro. Confira:

Textília: Em sua palestra no Congresso Internacional da Abit, você falou sobre as tecnologias e criações disruptivas. Para o têxtil, o que podemos esperar para o futuro? Ainda é possível (e há tempo) para adaptar as plantas industriais de acordo com a nova realidade de produção?

Giuseppe Gherzi: A questão não é se ainda haverá tempo para adaptar, e sim, se a indústria têxtil realmente poderá sobreviver sem integração dessas novas tecnologias e tendências (exemplo: funcionalização RFID, impressão e acabamentos digitais). Nossa resposta direta é: não! O timing será importante, não pode acontecer da noite para o dia, mas ainda é responsabilidade desta geração abraçar essas novas tecnologias que chegam.

Textília: Como a indústria têxtil irá organizar sua produção nos próximos anos? Ainda há espaço para configurações como a da China ou esse tipo de arranjo produtivo será extinto?

Gherzi: A China continuará a dominar os fios (filamentos e fibras descontínuas) e tecidos (urdidos e malharia) pelas próximas décadas. Nós não vemos nenhum possível país construindo capacidades tão significativas nas próximas décadas. Já nas confecções de vestuários, é outro tipo de jogo e irá aumentar fora da China, para países como Vietnã, Myanmar etc.

Textília: A eficiência na produção passa pela sustentabilidade ou há outro meio produtivo para as plantas industriais têxteis? Será que a sustentabilidade é uma tendência momentânea?

Gherzi: De jeito nenhum, há muitos anos muitas iniciativas foram lançadas para direcionar os aspectos sustentáveis nos químicos usados na cadeia de valores têxteis. Baseado no padrão Oeko-Tex®, introduzido nos anos 90, os produtos se tornaram mais seguros para o consumidor. Ainda assim, devido ao trágico evento em Bangladesh (quando um prédio com várias confecções desabou em 2013, matando mais de 1 mil trabalhadores), marcas e produtores tornaram-se mais conscientes na cadeia de produção de moda.

Textília: Há exemplos dessa consciência?

Gherzi: A campanha Detox, iniciada pelo Greenpeace com o objetivo de desintoxicar a cadeia de valores têxteis pelo mundo, se tornou uma consequência imediata para essa nova visão do consumidor. Até 2020, o Greenpeace lutará para banir 11 diferentes substâncias químicas da cadeia têxtil global, que foram analisadas pela organização como especialmente letais à saúde. Muitas iniciativas seguiram esse conceito, desde especificações para companhias RSL (Restricted Substance Lists ou Lista de Substâncias Restritas) até novos padrões para potências emergentes industriais que foram amplamente discutidos, como o ZDHC (Zero Discharge for Hazardous Chemicals – Descarte Zero para Químicas Perigosas), iniciativa de marcas e confecções internacionais. Marcas e confecções agora estão se tornando mais exigentes em solicitar ações de seus fornecedores, não somente sobre quais substâncias químicas não devem ser utilizadas nos artigos confeccionados, mas também no que não é permitido durante a manufatura de produtos relacionados ao setor têxtil. As consequências – explicadas em filmes como The True Cost, de Andrew Morgan – estão baseadas no apelo para uma produção transparente na "cadeia e, também (especialmente), nos baixos" custos de trabalho para os países de todo o mundo. A gestão da cadeia logística, por meio da ferramenta SCM (Supply Chain Managment Tool), está criando fundações tecnológicas para essa cadeia de suprimentos transparente e para seu controle no futuro.

Textília: A integração vertical ainda é possível neste novo mercado têxtil?

Gherzi: Hoje, ainda há vários produtos têxteis (denim, toalhas e lençóis) que requerem uma integração completa em termos de produção. Com a importante chegada das mudanças na funcionalidade das fábricas, isso pode mudar, especialmente se as cadeias de valores têxteis não abraçarem  as novas tecnologias disruptivas.

Textília: As indústrias de confecção estão preparadas para a revolução da indústria têxtil?

Gherzi: Nossa percepção é que a indústria de vestuário está abraçando com velocidade a chegada da revolução tecnológica. Nossos clientes de vestuário estão investindo em impressão e acabamento digital além de RFID.

Textília: As revoluções tecnológicas no segmento têxtil continuarão como tendência ou vão declinar após este momento criativo?

Gherzi: Nós temos que diferenciar de quais tecnologias estamos falamos. Vamos pegar dois exemplos: fiação – desde o sistema M8300, não houve inovação revolucionária, mas sim uma contínua melhoria e otimização de custos (entre eles, redução de energia) e automação; e impressão 3D – aqui a inovação (especialmente para têxteis) está começando somente agora, especialmente porque duas grandes patentes devem cair (patente dos EUA 5121329, da Stratasy, que expirou em 2009, e a patente dos EUA 5597589, da 3D Systems, que expirou em 2014). Como eu mencionei durante minha palestra no Brasil, há algumas companhias vendendo produtos têxteis feitos na impressora 3D (exemplo, a TamiCare, que produz e vende um não tecido elástico em todas as direções baseado na integração entre elastômeros e fibras  têxteis).

Textília: Há espaço para novas tecnologias empreendedoras ou a indústria já foi tomada por grandes companhias?

Gherzi: No passado, era difícil chegar com modelos de negócios inovadores, levando a uma falta de empreendedores nos têxteis tradicionais. Com uma grande demanda relacionada a têxteis técnicos, ainda há grandes oportunidades. Essa tendência irá ser alimentada pelos têxteis técnicos e ainda há grandes oportunidades de negócios. Eu realmente espero que a indústria têxtil abrace essas ideias, já que, se não o fizermos, teremos que ter integrações poderosas (como a Apple) colocando ainda mais pressão sobre a cadeia de valores têxteis. 

Textília: Como o Brasil deve se comportar nos próximos anos se quiser liderar a indústria têxtil global?

Gherzi: Os esforços devem ser feitos por todos os players em toda a cadeia de valores (incluindo o governo). O que fazer:

  1. Estabilizar a taxa de câmbio, evitando grandes flutuações da moeda;
  2. Estudar maiores incentivos para pesquisa e desenvolvimento e investimentos tecnológicos;
  3. Aumentar serviços JIT (Just in Time) com atacadistas, colocando responsabilidades tanto para produtores quanto para vendedores;
  4. Promover reformas de impostos e trabalhistas;
  5. Promover investimentos em infraestrutura e áreas críticas;
  6. Acelerar o FTA (Tratado de Livre Comércio) com grandes mercados consumidores (como Estados Unidos e União Europeia). De acordo com o departamento de promoção de exportações, o Brasil é completamente isolado do mercado internacional de bens manufaturados;
  7. Ajustar os elos de toda a cadeia têxtil, começando na fibra até o mercado consumidor final;
  8. Promover investimento em áreas estratégicas do têxtil, como produção de fibras de viscose (a competitividade da celulose no Brasil está disponível);
  9. Promover a conclusão da planta poliéster em Suape (PE), para que a oferta de produção e consumo atenda ao Brasil e ao mundo.

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Por: Gabriel Rajão
Foto: Divulgação

Data de publicação: 15/11/2016

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