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De Época: Mercosul realidade irreversível

A reorganização do mundo em blocos econômicos impõe a todos - governos, cidadãos, empresários, consumidores etc. uma nova postura e leva, principalmente, a repensar as estratégias comerciais e econômicas. Este chamamento se faz presente diante à recente decisão de se constituir um mercado comum regional, emanando antigas aspirações de nações latino-americanas. Os presidentes Collor (Brasil), Menen (Argentina), Lacalle (Uruguai) e Rodrigues (Paraguai) assinaram, em 26 de março de 1991, o tratado de Assunção que criou o Mercado Comum do Sul - Mercosul. A vontade política dos governantes dos Estados-parte do Mercosul vai se consolidando, independentemente da alternância do poder na região, e mostra-se irreversível, em função da incorporação e participação dos empresários e de toda a sociedade civil no processo.

O Embaixador Rubens A. Barbosa, chefe do Departamento de Integração Latino-Americana do Ministério das Relações Exteriores e Coordenador da Seção Brasileira do Grupo Mercado Comum afirmou que nesse primeiro ano de Mercosul o saldo foi positivo e que ocorreram alguns fatos muito importantes como a consolidação institucional, isto é, os órgãos criados para assuntos do Mercosul foram efetivados, havendo reuniões de todos eles: CMC - Conselho do Mercado Comum; GMC - Grupo Mercado Comum; SGT - Subgrupos Técnicos: SGT-I Assuntos Comerciais, SGT-11 Assuntos Aduaneiros, SGT-111 Normas Técnicas, SC-IV Política Fiscal e Monetária, SGT-V Transporte Terrestre, SGT-VI Transporte Marítimo, SGT-VII Política Industrial e Tecnológica, SGT-VIII Política Agrícola, SGT-IX Política Energética, SGT-X Políticas Macroeconômicas e SGT-XI Assuntos Trabalhistas. Do ponto de vista externo firmaram-se a imagem do Mercosul, bem como acordos de cooperação técnica com a CEE (Comunidade Econômica Européia), o acordo interinstitucional com áreas de cooperação definida (aduaneira, normas técnicas e agricultura).

Com os Estados Unidos, através do BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento, estão em negociação US$3,9 milhões para um período de três anos, que financiarão estudos em algumas áreas de interesse dos quatro países (comercial, competitividade, qualidade, aspectos institucionais e a participação da sociedade). Também estão surgindo interesses de acordos com o Japão e a Alemanha.

O Embaixador acrescentou que outro resultado positivo do Mercosul foi a aprovação do Estatuto das Empresas Binacionais (Brasil/Argentina). As empresas binacionais devem ter 80% do capital social em poder de investidores brasileiros ou argentinos, sendo que no mínimo 30% deste capital deverá pertencer a investidores desses dois países. As empresas binacionais gozarão do mesmo tratamento em relação ao acesso de créditos, tributação interna, incentivos ou vantagens de promoção industrial nacional, regional ou setorial, às compras e contratos do setor público, que as oferecidas às empresas de capital nacional. As transferências de lucro são garantidas.

O Mercosul apresenta o início efetivo do processo de integração latino-americana e, também, o fortalecimento da capacidade produtiva dos países signatários, além de um poderoso impulso à capacidade negociadora no plano internacional. "A integração traz como vantagens um quadro político democrático mais forte, estável e uma identidade do homem latino-americano, facilitada pela cultura e semelhança da língua", acredita o diretor do SGT-III para o Mercosul e diretor de normalização, qualidade e produtividade do Inmetro - Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial, Julio Cesar Carmo Bueno.

Em cifras, quem é quem

O Mercosul, porém, apresenta contrastes: o Brasil, sozinho, responde por 78% do PIB - Produto Interno Bruto do Mercosul e sua população representa cerca de 79% do total do bloco. Segundo o Embaixador Rubens Barbosa, nesse primeiro ano, no entanto, já é importante se notar os resultados do intercâmbio comercial.

Ele informou que as exportações brasileiras para o Paraguai, Uruguai e Argentina subiram de US$1,3 para US$2,3 bilhões, verificando-se um aumento de 77% entre 90 e 91. Por outro lado, o comércio intra-Mercosul passou de US$3,1 bilhões, em 90, para US$4,9 bilhões, em 91, apresentando um aumento de 36% no intercâmbio. Nos primeiros cinco meses de 92, a exportação brasileira para o Mercosul foi de US$1,3 bilhões, cifra igual às exportações do ano inteiro de 90.

Veja nas Tabelas 3 e 4 os números das exportações brasileiras para blocos econômicos e as exportações brasileiras para o Mercosul. Dentro do programa de liberação comercial, que entrou em vigor em 29 de dezembro de 91, já atingimos uma margem de preferência de 61% das taxas alfandegárias no comércio entre os quatro Estados-parte do Mercosul. Como as reduções tarifárias são progressivas e lineares, haverá reduções semestrais de 7%. "A última redução foi em 30 de junho passado e está valendo até 31 de dezembro de 92, quando atingiremos 68% de desagravação.

O tratado prevê uma liberalização progressiva no intercâmbio de bens e serviços dentro do Mercosul, até a eliminação das barreiras alfandegárias em 31 de dezembro de 94", afirmou Maria Luiza Brun, coordenadora do SGT-VI Política Industrial e Tecnológica e chefe da Assessoria Internacional do DIC Departamento da Indústria e Comércio. As reduções de taxas serão acompanhadas de cortes no número de produtos incluídos na lista de exceções, que cada um dos países do Mercosul apresenta. O Uruguai é o país que maior número de exceções apresentou em sua lista inicial, com 960 produtos. Em seguida vem o Paraguai com 439 itens, a Argentina com 394 e o Brasil com 324.

O Brasil e a Argentina cortam 20% do número de itens de suas listas de exceções por ano, até 94. Paraguai e Uruguai começaram baixando 10% de suas listas em 91 e vão continuar reduzindo suas exceções a cada ano, até dezembro de 95.

Foi estabelecido que até 31 de dezembro de 1994 - período de transição - os quatro Estados-membro tomem todas as iniciativas e se adaptem para que o tratado de Assunção possa vigorar oficialmente. Segundo o coordenador do SGT-III Normas Técnicas, Adriano Braga de melo, são objetivos do tratado:

- inserção mais competitiva das economias dos quatro países, num mundo em que se consolidam grandes aspectos econômicos e onde o progresso técnico se torna cada vez mais essencial para o êxito dos planos de desenvolvimento;

-favorecer economias de escala, reforçando as possibilidades de cada um dos países-membro com o incremento da produtividade;

-estimular os fluxos de comércio com o resto do mundo, tornando mais atraentes os investimentos na região;

-promover esforços de abertura nas economias dos quatro países, que deverão conduzir à integração gradual da América Latina;

-balizar as ações dos setores privados e da sociedade como um todo, que deverão ser os principais motores do processo de integração.

Melo acrescentou que as principais características do Mercosul são:

-livre circulação de bens e serviços e de fatores produtivos entre os países

-o estabelecimento de uma tarifa externa comum, e a adoção de uma política comercial comum em relação a terceiros Estados ou agrupamentos de Estados, e a coordenação de posições em foros econômico-comerciais, regionais e internacionais; -a coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais, entre os Estados-parte, de comércio exterior, agrícola, industrial, fiscal-monetária, cambial, de capitais, serviços, alfandegárias, de transportes, comunicações e outras.

Se observarmos com cuidado os objetivos do tratado e as características do Mercosul, veremos que os Estados-parte estão muito mais envolvidos pelo desejo, do que propriamente assentados na realidade objetiva do processo econômico, pois trata-se da integração de economias profundamente heterogêneas.

Além disso, outras tentativas de integração, como a Alalc - Associação Latino-Americana de livre Comércio e a Aladi - Associação Latino-Americana de Integração, não deram certo.

Segundo o coordenador do Departamento de Comércio Exterior da Abimaq/Sindimaq, João Abdalla Neto, o problema de assimetrias é uma das maiores preocupações, se não a maior, para todos os Estados-parte. Basicamente, as assimetrias se expressam em diferenças de competitividade, que poderiam causar danos setoriais irreparáveis.

Elas também aparecem nas políticas monetárias, cambiais, de comércio exterior, fiscais, trabalhistas, industriais, de acesso ao crédito, subsídios, harmonização de normas técnicas, certificados e critérios de origem, tarifas externas, dumping, drawback e outras.

Poderiam essas Assimetrias inviabilizar o Mercosul? "Não", respondeu o Ministro do Itamaraty e diretor do DIC - Departamento da Indústria e Comércio, Celso Marcos Vieira de Souza. Ele acrescenta que não se coloca em duvida que o Mercosul não vai se concretizar, por nenhum dos representantes dos países envolvidos. "Sim", respondeu o coordenador para o Mercosul e diretor-adjunto da Fiesp/ Ciesp, Luiz Fernando Furlan. "Um desajuste econômico muito forte de um dos Estados-parte e eventuais obstáculos de ordem política e econômica, poderiam impedir essa integração. Mas a conscientização dos governos e dos empresários deve conduzir para um enfoque positivo", concluiu.

Apesar das assimetrias existentes, Abdalla ressalta que o cronograma do Mercosul tem sido perseguido e executado, demonstrando que o Tratado de Assunção esta surpreendentemente caminhando bem, pois sua diretriz básica abrange todas as problemáticas que uma união aduaneira desse tipo poderia enfrentar. Abdalla acrescentou que, atualmente, as comissões têm dado ênfase aos seguintes assuntos: -Tarifa externa comum: o primeiro projeto será apresentado em nov. 92 e visa tarifa única, objetivando eqüidade de competitividade nos quatro países, evitando a triangulação. -Transporte: aumentou o comércio sem se expandir ou criar alternativas de transportes e tão pouco reapareIhando estradas, portos etc. poderá haver estrangulamento no sistema.

Mas, segundo o Embaixador Rubens A. Barbosa, a malha viária do Sul vai ser duplicada junto com a ação dos estados. Uma grande obra que está sendo estudada, mediante o processo de desenvolvimento, é a necessária construção de uma via que liga São Paulo, passando por Porto Alegre e Buenos Aires, até Santiago. -Assuntos aduaneiros: implica em remodelar sistemas de aduana, desburocratizando (com documentos adequados e necessários, estabelecendo exigências iguais aos quatro países), pois a tendência nos postos fronteiriços é ter uma aduana comum. -Normalização harmonizada: estabelecer normas e regulamentos técnicos para produtos e serviços aceitos nos países envolvidos, sem perda efetiva da autonomia dos países-membro de manter suas próprias normas. E, enquanto não existir a Norma Mercosul, as transações comerciais se pautarão nas normas do país comprador. Abdalla, da Abimaq/Sindimaq, frisou que não há de se esquecer que o estabelecimento da Norma Mercosul menos rígida, em termos de especificações de qualidade, poderá trazer prejuízo ao mercado, comparativamente a países onde a tônica geral é a qualidade final do produto.

A Norma Mercosul deverá levar em conta que os produtos finais devem ter as condições mais propícias para competir, tanto no mercado interno como no externo e, para isso, deve ter como espelho as normas mais modernas e, se for o caso, as normas internacionais. Furlan adverte, que "durante a consolidação do Mercosul, devem ser asseguradas que as decisões propostas não venham a conflitar com os interesses dos setores, classes empresariais, consumidores, comerciantes etc.; é preciso que haja efetivamente uma conscientização e participação. Aos empresários é vital a participação porque, depois que os atos são assinados e que passam pela aprovação dos respectivos governos, fica muito difícil voltar atrás". Ele lamenta que exista uma acerta dormência em muitos setores e atividades que ainda acham que o Mercosul não irá atingi-los. "O Mercosul afetará a todos os setores, em maior ou menor grau, mas o fará. Levamos essa preocupação ao Governador de São Paulo porque, há alguns meses, sentimos que os estados do Sul estavam bastante preocupados e ativos, enquanto São Paulo adormecia.

O Governador foi sensível às ponderações e entendeu que o maior alvo do Mercosul é o estado de São Paulo, já que é o maior centro econômico, seguido por Buenos Aires. A partir daí, foi criada na Fiesp uma comissão de assuntos para o Mercosul e, no âmbito do governo estadual, foi criado o Grupo Mercosul, que faz parte do Fórum Paulista de Desenvolvimento", concluiu Furlan. Os regulamentos e o Mercosul O diretor de Normalização, Qualidade e Produtividade do Inmetro - Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial para o Mercosul, Julio Cesar Bueno, disse, durante o seminário "Integração do Cone Sul Balanço do primeiro ano de Mercosul", realizado na Fiesp em julho último, que a integração é constitucional, portanto uma vontade política.

Esta se manifesta também com a participação do governo, trabalhando na harmonização das normas compulsórias - regulamentos técnicos emitidos pelo poder público, para assegurar os direitos dos cidadãos e permitir o comércio. Bueno lembrou que as normas voluntárias são elaboradas pela sociedade civil e representam, entre outros interesses, dos consumidores, produtores etc., sendo que sua força motriz é a racionalidade econômica. O presidente do lnmetro, Claudio Raeder, declarou que, no âmbito dos regulamentos técnicos (normas compulsórias), a coordenação do processo de harmonização fica para o governo; o setor privado apenas participa.

Mas, no âmbito das normas voluntárias, a liderança passa a ser do setor privado e de suas entidades representativas, como a ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas, ficando o governo apenas como participante. E assim acontece nos quatro países-membro, com suas instituições respectivas, descritas na Tabela 6. Normas técnicas no Brasil Claudio A. J. Moreira, secretário-executivo da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), informou que o Mercosul vem trazendo conseqüências em nível nacional. Houve como que um despertar, por parte dos empresários, à consciência da importância da normalização, principalmente quando vêem produtos entrando no país, muitas vezes com menor qualidade.

A normalização e todos os seus mecanismos tornam-se, mais do que nunca, importantes, inclusive a certificação de qualidade. No entanto, ainda não existe normalização harmonizada. Por enquanto, o que existe são esforços e trabalhos direcionados no âmbito dos setores da eletro-eletrônica, automobilística e de cimento. Dos 25 comitês da ABNT, muitos criados há muitos anos, precisam ser reformulados. O CB-1, da mineração e metalurgia, abrange outros segmentos como de águas, siderurgia, laminação etc. As tendências são várias; entre elas, a divisão dos comitês e criação dos Organismos de Normalização - ONS, especializados na elaboração de normas de determinados segmentos, seguindo as normas da ABNT e a votação com nível nacional. "Dos comitês, o mais moderno é o CB-25 (da Qualidade), com multiclientes, que faz projetos e os coloca no mercado, subsidiados pelas empresas por determinado tempo. Os mais ativos são o CB-02 da Construção Civil, o CB-4, mecânica e o CB-17 do setor Têxtil, por funcionarem e serem administrados dentro da Sindimaq", acrescentou Moreira. "É muito comum, hoje sabermos de missões setoriais, entidades de classe e sindicatos que estão indo para os outros países no Mercosul ou sendo recebidos aqui no Brasil. Este termômetro mostra que a temperatura do Mercosul está subindo". Luiz Fernando Furlan, diretor-adjunto da Fiesp e coordenador para o Mercosul.

Pensando na agilização das normas, ele lembra que está sendo encaminhado para aprovação da diretoria da ABNT, o procedimento de adoção de normas internacionais, com língua e texto de origem, para ser utilizado na íntegra por determinados segmentos, o que dará rapidez aos processos, principalmente aqueles voltados à eletrônica e informática. Posteriormente, estas normas vão ter uma tradição certificada. A participação do setor privado Furlan acredita que a Argentina está na frente no assunto Mercosul, porque há um entrosamento maior entre governo e empresas; há uma participação maior dos empresários, portanto, uma relevância maior deles.

Ou seja, os brasileiros vêem no Mercosul uma alternativa menos vital que os argentinos. Depois da Argentina, aparece, como mais interessado, o Uruguai e em terceiro lugar o Brasil. Por último o Paraguai. Vê-se crescente interesse dos brasileiros para que sejamos pró-ativos, levando sugestões às reuniões. "Os argentinos têm-se esforçado para opinar em tempo hábil, a fim de que a legislação saia de acordo com as suas intenções e, por outro lado, os brasileiros não tem tido o necessário zelo de acompanhar as negociações, para que não se tenha que lutar depois para corrigir a legislação". "Está sendo ultimada junto ao Ministério da Economia, uma fórmula para permitir a participação do setor privado, através de um fórum nacional, nas grandes linhas e diretrizes que vão ser implementadas dentro das negociações do Mercosul. Será um órgão consultivo, ao qual terão acessos representantes importantes do setor privado, não só patronal, como também sindical e dos consumidores", informou o Embaixador Rubens A. Barbosa.

Barbosa alertou que o Mercosul está tendo um papel didático, chamando a atenção do setor privado e do governo, de que algumas medidas relacionadas com o processo de abertura da economia devem ser tomadas, objetivando melhor competitividade dos produtos brasileiros, numa atuação mais firme das empresas. É fator de conscientização que certas medidas administrativas devem ser tomadas para permitir uma melhor racionalização, produtividade, controle dos custos etc.

Isto é importante não só em função do Mercosul, mas porque as empresas exportadoras devem se ajustar a uma nova situação do mercado internacional, em que vantagens comparativas (decorrentes de fatores de produção, custo de mão-de-obra, recursos naturais, elementos de taxas de juros e de cambio e economia de escala, entre outros), fiquem relegadas a um segundo plano, aparecendo em primeiro plano as vantagens competitivas (baseadas fundamentalmente no conceito da produtividade - medido pelo valor de produção gerada por uma unidade de trabalho e capital, onde a produtividade depende da qualidade e da forma dos produtos, além da eficiência com a qual são fabricados os produtos).

O setor têxtil e de confecção

Representantes dos setores de fibras químicas, fiação, tecelagem e confecção dos países componentes do Mercosul, discutiram, em reunião realizada na sede da ABIT - Associação Brasileira da Indústria Têxtil, em São Paulo, durante o mês de junho deste ano, os temas que integrarão o futuro acordo setorial da cadeia têxtil.

Ficou claro que a estruturação de um mercado comum regional e o programa de liberação comercial, modificam substancialmente as condições de operação das empresas radicadas na região. Não foi descartada a possibilidade de competição entre os produtores, já que, tradicionalmente, todos os países-membro são historicamente auto-suficientes e exportadores para terceiros países. Também ficou transparente que a redução de taxas alfandegárias aumentará o intercâmbio de bens. No setor têxtil, caracterizado comercialmente pela multiplicidade de ofertas, que impedem a formação de oligopólios, assim como por seu elevado nível de transação, deve tomar os maiores cuidados para que o processo de integração não adquira características obstrutivas para as vantagens competitivas existentes.

O setor já está prevendo uma adequação das empresas com base em recolocação de recursos, tanto humanos como de capital e melhorias na competitividade, dentro e fora da região. A estabilidade e a convergência das variáveis macroeconômicas dependerá do processo de estruturação e conversação, que deve realizar-se de forma ordenada. Sem obstáculos, deverá ser um acordo setorial que contemple as particularidades e características do comércio e das produções têxteis, arbitrando mecanismos que impeçam que situações transitórias tornem-se destrutivas ao processo de integração. O acordo é uma ferramenta básica, sendo sua formulação uma necessidade imperiosa nas atuais circunstâncias.

Também espera-se, a médio prazo, uma relocalização e redimensionamento das empresas, em função das vantagens competitivas. Deve-se buscar que o incremento dos mercados permita economias em escalas produtivas, que possibilitem à região a participação no comércio internacional.

Alguns itens foram acordados:

-a necessidade de uma comissão permanente entre os representantes privados da região, atuando, se necessário, como mecanismo de consulta, antes de eventuais desacordos durante a integração;

-a adoção de uma política comercial comum para terceiros países;

-a regulamentação da utilização de procedimentos que permitam o ingresso de insumos desses terceiros países;

-fixação imediata de taxas comuns para o intercâmbio de bens dentro da região, atualmente sujeitas ao acordo de liberação do Tratado de Assunção;

-eliminação de todo mecanismo de incentivo às exportações entre os Estados-parte; -unificação dos critérios de classificação, identificação e valorização aduaneira; -fortalecimento do certificado de origem para ratificar o livre comércio;

-fixação de critérios de comércio que minimizem os efeitos negativos de eventuais políticas de dumping na região;

-elaboração de uma lista qualiquantitativa de assimetrias, que os respectivos governos deverão eliminar, como requisito do êxito do processo de integração.

Acordos setoriais

"O primeiro setor a celebrar um acordo setorial no Mercosul foi o Siderúrgico. Também estão em negociação adiantada os setores: farmacêutico, químico, petroquímico, papel e celulose e têxtil e confecção", informou a coordenadora do SGT-VI Política Industrial e Tecnológica do Mercosul e chefe da assessoria internacional do DIC, Maria Luiza Brun, O SGT-VI atua, no período de transição, na harmonização da legislação sobre: promoção e reconversão industrial, regional ou setorial; política tecnológica unificada; meio ambiente; política de qualidade e produtividade. O SGT-VI também participa da criação do programa de qualidade e produtividade para o Mercosul, equivalente ao PBQP, além de serviços, política para micro, pequenas e médias empresas, diagnóstico de competitividade e a questão da harmonização do produto proveniente das zonas francas.

"Hoje temos 38 segmentos industriais negociando, resultado de um trabalho que mobilizou o setor privado para o Mercosul, que apesar de ter ser originado de uma decisão política, se concretiza com a integração do capital, pois não adianta o governo ficar só legislando", explicou Brun.

A coordenadora disse ainda que empresários de vários setores foram solicitados recentemente, para assinalarem os pontos que acham merecer maior atenção e preocupação.

Entre eles destacaram-se: a estabilização macroeconômica, zonas francas, a questão da origem, normas técnicas, tarifa externa comum, drawback e propriedade industrial na região. Ela acrescenta que hoje, de concreto, existe a aprovação de um cronograma de prioridades, a ser cumprido até dezembro de 94, que foi assinado pelo presidente dos Estados-parte em Las Levas, na última reunião em julho passado.

Opinião e projeto de empresários têxteis

O Mercosul traz mudanças imperativas como a redução das tarifas alfandegárias, com o que se espera que os negócios aumentem. Mas, também é sabido que a concorrência é condição sine qua non. Por isso, algumas empresas brasileiras, que têm ou pretendem ter negócios com o Mercosul, criam projetos, sendo que parte deles até já começou a ser executada, readaptando-se, e á sua empresa, a nova realidade. "Contando com uma produção eficiente e de qualidade, a Vicunha já esta se preparando para a abertura do mercado, montando sua clientela, desenvolvendo uma estrutura de marketing e conhecendo mais a fundo seus consumidores Mercosul, que se dividem em dois tipos: aquele que compra qualidade e o que compra pelo preço", informou Henrique Cury, responsável pelas exportações do Grupo. Cury acrescentou que a produção mensal da Vicunha NE é de 5 milhões de metros de índigo e, desse total, 4% é exportado para o Mercosul, pretendendo aumentar suas exportações para 9%. O país latino-americano que mais compra da empresa, e com regularidade desde 1989, é a Argentina. Cury não vê desvantagens no Mercosul, principalmente porque o parque industrial dos demais países é inferior ao do Brasil. "

O Mercosul é muito interessante. Abre novas perspectivas de mercado e facilita a importação, com extinção de fronteiras. Por isso estamos nos preparando, e muito, para a abertura do mercado, aprimorando o processo de industrialização, adquirindo novos equipamentos, principalmente na área de acabamento, melhorando, conseqüentemente, a qualidade e agilizando entregas", informou Gabriela loeh, diretora-administrativa do Lanifício Record. A empresa produz 50 mil metros de tecido/ mês e exporta para os EUA e América do Sul há mais de 20 anos. Entusiasmado com o Mercosul e com as oportunidades de negócios, o diretor-presidente da Malharia Cambuci, Roberto Estefano, está modernizado os equipamentos da empresa, visando aumentar as exportações de artigos esportivos para o mercado comum do Sul. O empresário não vê desvantagens como Mercosul e acha que a concorrência é salutar, pois a tendência é termos melhores preço e qualidade. A Cambuci exporto há oito anos para a Argentina, Paraguai e Uruguai cerca de US$3 milhões ao ano.

"A Santista exporta para os países latino-americanos desde 1970 e, hoje, com uma produção mensal entre 4 e 5 milhões de metros lineares, negocia com o Paraguai, Uruguai e Chile cerca de 500 mil metros por mês, sendo a grande maioria índigo", disse o responsável pelas vendas da empresa para a América Latina, Roberto Trugillo. Ele acredita que haverá um crescimento de negócios com o Mercosul. No entanto, ainda não há planos de incrementar a produção. Para a empresa, Trugillo vê, como principal vantagem, o fortalecimento do produto no mercado, que possivelmente se torne mais atrativo, por seus preços menores. Quanto às desvantagens, ainda não são vitais, lembrando que continuará exportando através de representantes e que, certamente, com a abertura do mercado, terá que aprimorar qualidade e preço dos produtos e serviços prestados. Já o diretor comercial das empresas do Grupo Braspar, Ivan Pacheco Reis, acredita que o Mercosul não vai ser muito representativo para a empresa, pois eles já têm a produção negociada e não pretendem incrementá-la. "As exportações giram em torno de US$1,5 milhão ao ano, sendo que apenas 2% provêm do Mercosul", concluiu.

 

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Por: Elza Pauluv

Data de publicação: 01/09/1992

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Criar um protocolo com aval de entidades médicas e parceria com autoridades governamentais, para disciplinar o retorno gradativo das atividades do comércio, foi a principal sugestão do encontro com empresários do setor têxtil, confecção e lavanderia, promovido pela Denim City SP, por meio de vídeo conferência no dia 2 de abril.  2020-04-06 - Tags: webnar industria textil conjuntura denim city sp maria josé orione gilberto stocche gustavo manfredini josé eduardo nahas filho paulo totaro robi spatti ronaldo faria

AGU obtém autorização para governo adotar medidas contra Covid-19
A Advocacia-Geral da União (AGU) conseguiu autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para que sejam afastadas, durante o período de enfrentamento à Covid-19, exigências previstas na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que dificultavam a implantação de programas de proteção à parcela mais vulnerável da sociedade pelo governo federal.  2020-04-01 - Tags: agu advocacia geral da uniao supremo tribunal federal covid 19 lei de diretrizes orcamentarias

Pandemia afeta indústria têxtil e de confecção e já gera prejuízo de R$ 15 bilhões
Enquete realizada pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) revela que, até esta sexta-feira, 27 de março, 97% dos empresários do setor revelam já estar sentindo impactos negativos da paralisação da economia provocada pelo novo coronavírus. Os empresários mencionam como a pandemia tem mudado a rotina do processo produtivo, além de causar um prejuízo mensal estimado em R$ 15 bilhões para o setor.  2020-03-31 - Tags: corona virus covid19 prejuizo industria textil abit paralisacao pandemia produtos

Exportações já apresentam queda na segunda semana de março
A FecomercioSP tem acompanhado os impactos da pandemia do coronavírus (covid-19) em diversas áreas da sociedade. Dessa forma, o Conselho de Relações Internacionais da Entidade ouviu os associados e empresários do setor para entender como a operação de comércio exterior tem sido afetada. Algumas empresas já adiaram o envio de cargas para a China e outras estão renegociando contratos de importação em decorrência da valorização do dólar.  2020-03-25 - Tags: fecomerciosp exportacoes area textil industria importacoes empresarios

Fiesc pede apoio do Governo para solucionar problemas de infraestrutura
Nos últimos 10 anos, foram entregues apenas 14,5 quilômetros das obras de ampliação de capacidade e duplicação das rodovias federais estratégicas para o Estado, as BRs 163, 280 e 470. A informação foi apresentada pelo presidente da Federação das Indústrias (Fiesc), Mario Cezar de Aguiar, ao vice-presidente da República, general Hamilton Mourão.  2020-03-09 - Tags: federacao das industrias hamilton mourao sintex santa catarina fiesc governo conjuntura

Capacidade produtiva da indústria deve crescer em 2020
Depois de um 2019 com sinais de retomada, a indústria, em geral, vê 2020 com otimismo. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Utilização da Capacidade Instalada (UCI) ficou em 78,2% no mês de novembro de 2019. Para a Mitsubishi Electric, uma das maiores empresas de automação industrial do mundo, a tendência é que este indicador continue subindo este ano.  2020-03-02 - Tags: confederacao nacional da industria mitsubishi electric conjuntura textil confianxa do empresario industrial

Programa Brasil Mais pretende aumentar a eficiência das empresas
O presidente da República, Jair Bolsonaro, assinou, na terça-feira (18), decreto de criação do programa Brasil Mais, que vai atender indústria, comércio e serviços. Coordenado pelo Ministério da Economia e gerido pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o programa será executado pelo Senai e pelo Sebrae.  2020-02-21 - Tags: jair bolsonaro programa brasil mais abdi sebrae senai ministerio da economia praticas produtivas

Previsão de queda no preço do algodão enquanto o fornecimento atinge níveis recorde
Os preços do algodão permanecerão baixos nas temporadas 2019/20 enquanto a oferta supera a demanda e os excedentes crescem, de acordo com um relatório da Edição 200 da Textile Outlook International, da empresa de informações de comércio global Textiles Intelligence.  2020-01-09 - Tags: algodao precos supplies fornecimento 2019 2020

Brasileiro mostra otimismo e espera melhora da economia para 2020
A nova edição da pesquisa Perspectivas 2019: ‘Expectativa dos Brasileiros com o Cenário Econômico e Social”, realizada pela parceria ACREFI/Kantar, aponta que o brasileiro demonstra otimismo mais consciente e espera melhora da economia a partir do 2º Semestre de 2020. Se nos últimos três anos o levantamento mostrava que 17% estavam propensos a fazer um financiamento, atualmente o percentual saltou para 45%.  2019-11-14 - Tags: kantar perspectivas 2019 acrefi hilgo gonçalves conjuntura perspetiva de mercado