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Brasil poderá sofrer apagão industrial

“Não podemos entregar gratuitamente um mercado interno que custamos tanto a construir”, apelou o industrial, Agnaldo Diniz Filho, presidente da centenária Cedro Cachoeira, de Minas Gerais, e da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção (Abit), durante coletiva no Salão Première Brasil Outono/Inverno 2012, realizado nos dias 20 e 21 de julho, em São Paulo. O evento, que reúne 121 fabricantes de tecidos, fios, fibras, acessórios e design, é hoje um dos mais prestigiados do setor têxtil nacional que tenta, a todo custo, enfrentar a concorrência dos produtos importados, especialmente artigos confeccionados. E a ameaça não vem só da China, geralmente apontada como o maior competidor do Brasil no setor têxtil/confecção, mas de outros países também, incluindo empresas européias. Diniz Filho assegura que não se trata de xenofobia e nem de reserva de mercado. Na sua avaliação, a troca comercial saudável é positiva, pois incentiva a competitividade, mas a concorrência desleal, provocada por importações de produtos comercializados com preços abaixo dos praticados no mercado interno, é predatória à industria brasileira.  “O setor (têxtil/confecção), de absoluta relevância para o país, que emprega  1,7 milhão de pessoas diretamente, encontra fôlego e incentivo em um evento como o Première Brasil. Sem xenofobia, contudo é necessário fortalecer a confecção nacional, pois sem ela, a indústria têxtil não prospera”, defendeu o presidente da Abit.

Balança em déficit crescente

Pressionada pelo avanço das importações, principalmente provenientes da China, a indústria têxtil e de confecção encerrou o primeiro semestre com déficit no patamar de US$ 2,260 bilhões, um avanço de 43,2% frente ao déficit registrado no período de janeiro a junho do ano passado. De acordo com dados divulgados pela Abit, as importações somaram US$ 2,966 bilhões, frente aos US$ 2,253 bilhões verificados um ano antes, resultando num crescimento de 31,7%. Já as exportações continuam perdendo terreno, registrando aumento de apenas 4,7% (US$ 706,3 milhões). Agnaldo Diniz Filho admitiu que o déficit da balança comercial do setor têxtil/confecção deverá alcançar US$ 5,5 bilhões em 2011, contra os US$ 3,5 bilhões registrados no ano passado. No que se refere ao volume das importações, houve um aumento de 5,4% no primeiro semestre, totalizando 587,9 mil toneladas contra 138,1 mil toneladas de produtos brasileiros exportados. Os números negativos da balança comercial do setor tem sido acompanhados pela queda na produção. De janeiro a maio, a produção na indústria de vestuário e confecção nacional recuou 0,35%, enquanto o segmento têxtil apresentou perda de 11,9% na produção. Entretanto, no varejo, o consumo continua aquecido, registrando um aumento de 6,86% nos cinco primeiros meses do ano, o que na avaliação da Abit demonstra que os produtos importados estão claramente atendendo à demanda interna, graças não só à valorização do real frente ao dólar, mas também a entrada de mercadorias asiáticas, de forma ilegal, pelas fronteiras do Mercosul. “O importador de tecido hoje está colocando no mercado a peça pronta e matando toda a cadeia da confecção. Precisamos de um regime diferenciado de tributação para ganhar escala”, declara o líder da Abit.

Pacote da Dilma 

Tendo como principal argumento a geração de emprego, sobretudo da confecção onde a grande maioria dos trabalhadores é de mulheres, a Abit espera convencer o governo da importância estratégica da cadeia têxtil para o crescimento econômico do país, já que segundo Diniz Filho, para 2011, as projeções da Abit apontam para uma queda no faturamento do setor que, em 2010 somou US$ 90 bilhões. Recentemente, a presidente Dilma Rousseff anunciou, durante entrevista a uma rádio no Paraná, que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) está preparando um programa específico de estímulo ao setor têxtil/confecção. “O programa vai se caracterizar pela redução de impostos, melhorias nas condições de financiamento, por exigências maiores quanto a qualidade dos produtos que estão sendo importados na área têxtil. Com isso, acreditamos que uma parte das defesas brasileiras nessa questão será colocada em prática e tornada realidade”, disse a presidente, segundo nota divulgada pela Agência Estado. 

Perdendo terreno, ou melhor, galpão

O desabafo do empresariado têxtil encontra ressonância nas várias vozes do setor industrial, e também acadêmico, que vem alertando o governo sobre o perigo da desindustrialização no Brasil. “Ao longo dos últimos anos, o setor reduziu a participação no Produto Interno Bruto (PIB), no emprego e nas exportações”, declarou o diretor executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Augusto Fernandes, que participou de audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), realizada no dia 6 de julho. Na ocasião, foram discutidos os riscos de um processo de desindustrializaçãono país e a agenda em favor da competitividade industrial. Para o diretor executivo da CNI, é preciso trabalhar para reduzir o custo Brasil, desonerando os investimentos e as exportações. Além disso, é necessário eliminar as assimetrias competitivas, como as provocadas pela redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) nas importações, incentivo concedido por alguns estados em prejuízo de outros. Fernandes destacou que é também preciso investir na qualidade da educação e na inovação, aperfeiçoar a política macroeconômica garantindo maior controle dos gastos públicos e melhorar os mecanismos de defesa e  negociação comercial. “Tudo isso requer urgência. O tempo econômico é diferente do tempo político e o atraso poderá comprometer a indústria.”

Números preocupantes

Dados da CNI mostram que a participação da indústria no PIB brasileiro caiu de 35,9% em 1984 para 15,8% em 2010. O setor que foi responsável por 30,6% de todos os postos de trabalho no país na década de 1980, hoje emprega apenas 17,4% do contingente de trabalhadores. As exportações industriais, que representavam 60,8% em 1993, hoje participam com 39,4% do total de bens e serviços vendidos ao exterior. Em compensação, as importações industriais aumentaram de 11,4% do total de compras externas do país (em 2000) para 18,7% atualmente. Segundo Fernandes, vários fatores contribuem para a perda de espaço da indústria. Questões macroeconômicas, como a instabilidade da economia dos anos 1980 e do início dos 1990, o novo padrão de crescimento global e a recente política econômica – que acelerou os gastos públicos, aumentou os juros e fortaleceu o real – contribuíram para a perda de participação da indústria na economia.  Outro setor que se demonstra preocupado com as perdas da industria nacional  é o de bens de capital. “Quando o setor de confecção deixa de investir ou fecha uma fábrica, o nosso deixa de vender máquinas e equipamentos”, declara Luiz Aubert Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

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Edição: Marcia Mariano
Fotos: Sxc.hu e Casa3Stúdio/Daniel Cruz
Fonte: Abit CNI e Valor Econômico

Data de publicação: 21/07/2011

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