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Couro de peixe Pirarucu: uma nova descoberta do mundo sobre o Brasil

Quando a coordenadora de pesquisa e desenvolvimento da marca Salvatore Ferragamo, Gel Egger Ceccarelli, anunciou o couro vencedor do PV Awards 2017 – premiação que elege os melhores materiais para o desenvolvimento de moda premium da feira Première Vision Paris – possivelmente poucas pessoas na plateia de jornalistas e designers de grandes brands mundiais soubessem o quão notável era aquela pele. Foi ela mesma, Gel, que puxou a responsabilidade para si e, ao microfone, tratou de esclarecer que aquele couro de peixe do brasileiríssimo curtume Nova Kaeru era mesmo muito especial. "Sabemos a importância da sustentabilidade dos materiais, e esta pele de Pirarucu do Brasil, que pode ser usada na produção de uma grande variedade de artigos, apresenta essa característica", disse Gel no palco montado no Parc des Expositions Paris Nord Villepinte, onde se iniciam as pesquisas para o que estará nas vitrines na próxima estação. Além da representante da Salvatore Ferragamo, outros expoentes da moda mundial compunham o júri, presidido pelo cineasta e empresário do setor têxtil John Malkovich.  

O troféu recebido em Paris não foi o primeiro reconhecimento público ao couro de Pirarucu produzido pela indústria Nova Kaeru, localizada na cidade de Três Rios, no estado do Rio de Janeiro. Antes, outras plataformas do comércio mundial de materiais de moda (como Hong Kong e Seul, na Coreia do Sul) já haviam jogado luzes sobre a pele do peixe nativo da região amazônica do Brasil, mas seu desconhecimento do grande público ainda persiste. O motivo é bastante natural: se o couro bovino acompanha o homem desde os tempos mais remotos (tendo participação, inclusive, na caminhada da evolução humana), o couro do Pirarucu tem sido usado na produção de artefatos há menos de 10 anos. Antes, era simplesmente descartado ou desvalorizado pelas comunidades atuantes na pesca, que visavam exclusivamente a carne do peixe. 

Foi preciso um trabalho de conscientização e mudança de uma cultura para preservar o couro do Pirarucu. Quem conta essa história é Eduardo Filgueiras, sócio do curtume Nova Kaeru. "O Pirarucu tem uma segunda pele interna, que o pescador retirava para embalar a carne e deixá-la com um aspecto uniforme; esse processo não tinha influência prática nenhuma sobre a carne, exceto estética, e ainda provocava furos no couro que prejudicavam ou mesmo inviabilizavam seu uso pelo curtume", relembra. Para solucionar essa questão, a empresa iniciou em 2008 um programa com populações indígenas e ribeirinhas da Amazônia que persiste até hoje, compartilhando conhecimento sobre o valor que pode ser gerado com uma esfola (retirada da pele) adequada do peixe, preservando a segunda camada sob o couro. De forma perene, um especialista ligado à Nova Kaeru visita as comunidades ligadas à pesca do Pirarucu para sensibilização, atualização de técnicas e aproximação com as melhores práticas do encaminhamento das peles aos frigoríficos regulamentados locais, que fornecem os couros in natura ao curtume.    

Os resultados não demoraram a aparecer: a economia das regiões de pesca melhorou, com agregação de uma nova fonte de renda – antes simplesmente colocada no lixo. "Milhares de famílias na região Amazônica têm a sua sobrevivência ligada à conservação e captura deste peixe, e o couro faz parte desta cadeia produtiva", afirma Eduardo. A preservação dos recursos naturais é garantida e toda a pesca é controlada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (IBAMA), que anualmente faz uma estimativa e controla a extensão possível de pesca do Pirarucu no território brasileiro.  Hoje, cerca de 50 mil peixes desta espécie podem ser pescados no país; destes, 15 mil têm sua pele aproveitada pelos curtumes brasileiros. 

Estas peles, mesmo que não conhecidas em massa mundialmente, estão (e muito!) nos pontos mais desejados do fashion business mundial. Por motivos comerciais, Nova Kaeru não revela os clientes que tem, mas o Pirarucu é facilmente reconhecível e se pode ver com alguma frequência nas passarelas das semanas de moda mais badaladas e, inclusive, no figurino de blockbusters do cinema. Um verdadeiro sucesso original do Brasil. 

Afora as grandes marcas, Nova Kaeru está também em pequenas e médias labels de calçados, acessórios e roupas da Ásia, Europa e América do Norte. Além da Première Vision Paris, onde ganhou o PV Awards, participa da mesma feira em Nova York, além de Lineapelle (Itália), Interzum (Alemanha), Futurmoda (Espanha) e Inspiramais, em São Paulo, sempre com o apoio do projeto Brazillian Leather, uma iniciativa do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) e Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) para o incentivo às exportações de couro o Brasil. 

Vêm do projeto Brazilian Leather, aliás, duas outras iniciativas que têm projetado o couro do Brasil no mundo da moda e da sustentabilidade de forma muito consistente: o Design na Pele e a Certificação de Sustentabilidade do Couro Brasileiro (CSCB). O projeto Design na Pele integra grandes designers brasileiros (como Ronaldo Fraga e Patrícia Viera) com indústrias de calçados e móveis tendo o couro como elemento unificador na concepção de produtos incríveis. Já o CSCB garante que os curtumes brasileiros produzam peles – sejam elas bovinas, de peixes, caprinos, ovinos ou outras – de forma a preservar recursos naturais, garantindo a economia do país e respeitando comunidades envolvidas. É a sustentabilidade na prática em moda, no consumo e na indústria do couro. Inovações mundiais que têm o couro do Brasil como expoente principal.  

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Fonte: CICB
Fotos: Divulgação

Data de publicação: 16/11/2017

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