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Moda - Restrito

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Concurso de moda inclusiva é fábrica de talentos

A ITT Press abordou em suas últimas edições as criações ousadas e inovadoras que jovens talentos brasileiros e internacionais apresentaram no Concurso de Moda Inclusiva, coordenado pela Secretaria de Estado da Pessoa com Deficiência (SEDPCD) de São Paulo, sob coordenação de Daniela Auler. O evento continua a brilhar no cenário nacional, dando oportunidades aos novos talentos de mostrarem que estão aptos a superar desafios, inovar e solucionar problemas comuns ao dia a dia de quase 45,6 milhões de pessoas com deficiência no Brasil (dados do Censo 2010).

O mais intrigante neste processo é notar como os jovens talentos são realmente jovens, alguns com somente 18 anos. Isso nos motiva a continuar atuando no setor têxtil e de confecção e indica que a paixão pela profissão ainda está viva, apesar das crises internacionais. O caminho descoberto por esses jovens está na descoberta de nichos de mercado possíveis de serem explorados. É um exemplo a ser seguido por todos nós, que precisamos reinventar a cada dia a indústria da moda.

Os nomes aqui selecionados estão entre os finalistas da 6ª edição do concurso, realizado em 2014. Continuaremos, em outras edições da Textília, a publicar essa série de reportagens, mostrando os nossos candidatos favoritos sempre com contatos completos. Nosso objetivo é permitir que a indústria de toda a cadeia possa aproveitar os talentos em suas equipes fabris e de criação, trazendo mais inovações ao mercado. A listagem completa de finalistas (e suas criações) pode ser vista em modainclusiva.sedpcd.sp.gov.br.

Este designer gráfico é o típico artista incansável, que não se contenta com uma só linguagem e navega com tranquilidade por diversos universos, entre eles a moda. “Queria sempre algo a mais em meu curso e descobri a moda quase sem querer, pesquisando em sites e outras reportagens que me interessavam. Vi que a moda inclusiva é pouco explorada e sabia de cara que tinha algo a contribuir”, argumenta Caio. Para a coleção, ele se inspirou nas similaridades entre um piloto de corrida e os cadeirantes, numa visão inovadora e sem preconceitos sobre as pessoas com deficiência. “Além do fato de estarem sobre rodas, são pessoas de garra, força e superação. O macacão, uniforme tradicional do esporte, é reinterpretado e desconstruído. A calça e o colete têm um ar minimalista que privilegia o conforto. O tingimento localizado faz alusão à graxa dos carros nas roupas dos profissionais do mundo automobilístico”, descreve.

Drika Valério – Inclusão sem tabus

Hoje com 27 anos, Drika foi a ganhadora do concurso de 2012 e decidiu continuar investindo no nicho da acessibilidade, inclusive mantendo a marca própria Somos Todos Nós (veja em facebook/somostodosnos1). Com uma visão muito clara sobre o que é moda inclusiva, dispara: “Nossas criações não são somente para pessoas com deficiência, pois isso seria uma exclusão. Fazemos roupas para todos os que nos procuram, pois o estilo, a tendência e a inovação são partes do dia a dia de qualquer pessoa”. O trabalho da Somos Todos Nós é totalmente personalizado: antes de qualquer produção, é feito contato direto com os clientes, realizando peças conforme a necessidade de cada um e entregando em todo o País. É bom ficar de olho, pois as peças da empresa já estão em duas lojas: uma em São Paulo e outra no interior do Estado, Bauru, onde a criadora reside.

A vida de Henrique trouxe, por si só, grandes barreiras a serem enfrentadas que o aproximam dos desafios constantes pelos quais as pessoas com deficiência precisam passar diariamente. Sem apoios familiares, esse precoce garoto de 18 anos era um dos únicos criadores do concurso que não estava em plena carreira escolar em áreas correlatas à moda ou ao design. Mas, com grande habilidade de adaptação, conseguiu ficar entre os finalistas, provando que talento e determinação são ingredientes essenciais para o sucesso. “Parte fundamental da pesquisa para o projeto veio da oportunidade que tive de acompanhar o treino dos atletas cadeirantes do Gadecamp (equipe de basquete em cadeira de rodas de Campinas). Conversei bastante com eles sobre o estilo de vida que levam”, conta.

Para Henrique, a maior dificuldade foi a falta de recursos para colocar em prática seu projeto. Devido a mudanças que se fizeram necessárias, foi difícil manter as inovações que desejava. “Mas aprendi que projeto e prática são duas coisas completamente diferentes e consegui mostrar que estou pronto para me adaptar às situações mais adversas”, finaliza.

Depois de participar do concurso, Izabela descobriu sua vocação para a moda inclusiva, dedicando sua criatividade e experiência para desbravar os caminhos da adaptabilidade dos vestuários e acessórios ao universo infantil. “A partir do momento que troquei meu foco inicial para o vestuário infantil, percebi a carência de peças inclusivas destinadas a crianças e adolescentes. Caso venha a me inscrever na próxima edição do concurso, pretendo fazer um projeto ligado a esse segmento”, antecipa Izabela. A criadora explica que busca peças para serem usadas desde o dia a dia até a fisioterapia, mas sempre para facilitar o ato de vestir tanto para a criança quanto para a mãe. “Nenhum profissional pode encarar a moda inclusiva como um campo isolado. Ela deve ser parte de qualquer pensamento e ser um objetivo durante todo o processo de criação. O que temos que adaptar não é a roupa, mas nossa forma de pensar”, ressalta.

Natural de Goiânia (GO), a criadora Mariana Milani é uma entusiasta dos nichos de mercado para profissionais de moda. Atualmente dedicada à área de figurinos publicitários, ela está sempre atenta às oportunidades ao seu redor. Como muitos dos participantes do concurso, não se limita a rótulos profissionais. Mas uma coisa é certa: assim como vários outros, ela também pretende continuar o estudo no campo de adaptabilidades da cadeia têxtil. Um dos projetos, inclusive, é defender tese de mestrado sobre o tema.

No concurso de 2014, ela inspirou-se nos códigos indígenas – eles mesmos muitas vezes excluídos da sociedade pelas diferenças culturais – como pano de fundo para sua coleção. “Pensei nos códigos simbólicos que servem de diálogo entre tribos, na comunidade e na natureza”, diz. Um dos maiores desafios para suas inovações foi o acolchoamento das peças, uma proteção que também é nossa inovação favorita. “A camisa apresenta um recorte no cotovelo com acolchoamento, facilitando sua flexão ao impacto da cadeira de rodas”, explica.

Saindo diretamente das passarelas para a decoração, Natália está utilizando todo o conhecimento do seu curso de moda para buscar seu lugar no mercado de trabalho. “Digamos que ainda estou me descobrindo”, confidencia.

Sobre o concurso, ela explica que o maior retorno foi a possibilidade de expandir o horizonte de pensamento, principalmente sobre as necessidades de pessoas com deficiência visual, tópico que ainda é pouco debatido na cadeia têxtil e de confecção. “O tema me encanta. Facilitar o dia a dia das pessoas com informações de moda acessíveis me deixa mais inspirada para continuar neste caminho”, afirma.

Sua maior inspiração na criação da roupa foi a “independência”. Ela desejava que seus clientes soubessem com facilidade o que estavam vestindo, algo que nunca é simples para quem não consegue enxergar e diferenciar as cores, detalhes e estampas das peças. “Imaginei o quão interessante seria se houvesse componentes culturais nessa roupa, para que a pessoa com deficiência visual pudesse entender e sentir as características de uma determinada estética. Assim, canalizei esse projeto no movimento artístico Art Déco”, lembra.

Já na faculdade, Renata se interessava pelo tema da acessibilidade, tendo desenvolvido um sapato para mulheres que tinham medições diferentes das pernas. A ideia era permitir encaixes a serem adaptados pela própria consumidora, garantindo assim que o produto fosse vendido a qualquer pessoa. Sempre ávida por novidades, Renata agora atua com cenografia, mas permanece apaixonada pela área calçadista.

Em sua coleção, trouxe aos desenhos um “questionamento sobre padrões presentes na sociedade que não aderem ao design inclusivo". "A assimetria foi utilizada como tema para mostrar que é possível aplicar soluções de forma a atender um maior número de usuários”, observa. Tarsila do Amaral e seu tropicalismo de dimensões absurdas – como no quadro Abaporu – foi o pano de fundo das criações, que incluem um vestido de festa assimétrico para facilitar a colocação e retirada da prótese.

Foi a necessidade de adaptar sua rotina para auxiliar uma amiga que ficou deficiente após um acidente – ao mesmo tempo que seu pai superava uma doença degenerativa - que Tamiris percebeu como a moda estava distante de ser uma ferramenta funcional para usuários com necessidades especiais. Para o concurso, ela fez o que poucas pessoas conseguem: se imaginou no lugar de quem precisa superar uma nova condição, pensando o que poderia ajudá-la a continuar sua rotina caso fosse necessário.

O resultado foram peças incríveis e ultrafuncionais, que valorizam a multiplicidade de usos e uma enorme independência no vestir e no despir. “Grande parte das pessoas entram no ‘mundo inclusivo’ por causa de algum acidente no decorrer da vida. Então, me imaginei na mesma situação”, conta.

Referência cearense da moda inclusiva, Thais está cursando Design de Moda na Universidade Federal do Ceará, instituição na qual atua no Programa de Ensino Tutorial. Junto a um grupo de estudos, desenvolve projetos e artigos sobre o tema, tendo inclusive participado do 1º Concurso Ceará de Moda Acessível. “Atuar na moda inclusiva é um de meus objetivos principais. O principal desafio é a carência de visibilidade das inovações dos jovens designers, algo que está começando a mudar, graças aos projetos nacionais e concursos como o Moda Inclusiva”, analisa.

O tema da coleção reflete a paixão expressada por Thais pelo tema da inclusão. “Me inspirei no sistema nervoso, nas sensações corporais e nos estímulos que fazem o corpo. Entre eles, o despertar do medo, do prazer e da defesa instintiva”, diz.

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Por: Gabriel Rajão
Fotos: Divulgação

Data de publicação: 24/03/2015

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