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Varejo deve impulsionar indústria 4.0

“Tradicionalmente identificada como indústria de baixa intensidade tecnológica, a indústria têxtil e de confecção poderá dar um grande salto qualitativo em direção às categorias de maior emprego de ciência e tecnologia se for capaz de disseminar sistemas ciberfísicos, Internet das Coisas, Internet dos Serviços e automação modular em sua manufatura.”, este é um trecho do instigante livro A Quarta Revolução Industrial Têxtil e Vestuário, do pesquisador Flávio da Silveira Bruno, lançado recentemente pelo Senai Cetiqt.

Em 150 páginas, o livro descortina um amplo universo de possibilidades que poderão revolucionar a indústria na próxima década. Segundo o autor, a diversidade de produtos com tecnologias vestíveis, o emprego da bio-tecnologia e novos materiais irão ampliar a demanda por têxteis inteligentes e funcionais, aumentando exponencialmente a diversidade e a intensidade tecnológica de fios, tecidos, aviamentos e produtos auxiliares, exigidos para atender novas necessidades de consumo.

A aglutinação das tecnologias, abrangendo várias áreas do conhecimento, tornará possível uma sinergia entre os produtores de fibras, design, confecção e novos canais de comércio, resultando no conceito no conceito “confecção 4.0”. Em sua  apresentação, durante o Congresso Internacional da Associação  Brasileira  da  Indústria  Têxtil   e de Confecção (Abit), realizado em junho, o autor disse que o livro é resultado do trabalho que envolveu empresários, academia e setores do governo para elaboração das propostas que apontam  os  caminhos  para o Projeto Têxtil 2030. “Hoje, é preciso en- tender a compressão espaço-temporal da produção e do consumo. O consumidor quer comprar algo customizado, com bom preço, pela internet, e receber em casa no dia seguinte.”

Segundo ele, as minifábricas permitem que os fabricantes integrem os processos de pedidos, design, modelagem, tingimento e/ou estamparia; rotulagem, corte a laser, costura automática, acabamento e embalagem, gerando uma  produção  customizada  e rápida, com rentabilidade maior que a da produção de massa.

Futuro para o têxtil

A confecção 4.0 também permeou  o  tema da palestra do diretor superintendente da Abit, Fernando Pimentel, durante a última edição do Latam Retail Show 2016, que foi realizada em agosto, em São Paulo. Para Pimentel, o aumento da intensidade tecnológica,  em  todos  os  campos  de negócios, principalmente nas áreas de comércio  e serviços, irá atrair talentos e profissionais qualificados também para a indústria têxtil e, principalmente, da confecção. “Graças às avançadas soluções tecnológicas, a manufatura integrada ao consumidor permitirá atender a demanda customizada, uma exigência que se tornará cada vez maior no mercado.”

O dirigente da Abit lembrou que, hoje, entre 3% e 4% da estamparia têxtil já é digital, o que possibilita, além da produção de pequenos lotes variados, a pouca utilização de água no processo de beneficiamento. Pimentel também ressaltou que sensores eletrônicos e nanopartículas, inseridas em fibras têxteis, vão permitir mais vestuário inteligente. “Um exemplo  dos  benefícios que a tecnologia pode trazer aos têxteis é a introdução de sensores térmicos nas roupas dos bombeiros, que indicam os níveis de calor do ambiente, prevenindo situações de risco ao profissional.” Fernando Pimentel aproveitou para anunciar que, em outubro do próximo ano, será realizada no Rio de  Janeiro a 1a Conferência Internacional de Confecções, quando deverão ser apresentadas ao público as primeiras pequenas plantas- piloto de confecção 4.0 em funcionamento. “A Abit completará 60 anos em 2017 e é com inovação e renovação que fortaleceremos a nossa cadeia produtiva. Certamente, as novas tecnologias vão atrair para o setor os jovens que hoje não se interessam por processos convencionais.”

Outros temas

Trabalhar diretamente com os fornecedores, superar o excesso de regulamentação, além de se preparar para o crescimento vertiginoso do e-commerce, cuja logística ainda é o maior obstáculo, são os grandes desafios do varejo brasileiro para entrar de vez no século 21.

Para os especialistas que participaram do Latam Retail Show 2016, “o varejo é o melhor intérprete dos anseios e  expectativas da sociedade. Portanto, deve ser capaz de atender à geração do milênio ou geração da internet (Millennials), que hoje decide 60% de suas compras através de equipamentos móveis (smarphones e tablets)”.

Integração de canais

A loja é considerada o centro de experiência do consumidor. A Apple, por exemplo, vende seus produtos pela internet, mas mantém a loja física para  oferecer serviços  e estabelecer convivência com seus clientes, ou seja, uma modalidade de comércio não substitui a outra, ao contrário, complementa. Já as megalojas, especialmente as de departamentos, não terão espaço no futuro, segundo os palestrantes. O alto preço dos aluguéis e a falta de espaços nos grandes centros urbanos farão com que esse tipo de varejo repense seus espaços.

O empresário Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas - que produz fios, tecidos e artigos de cama, mesa e banho -, lembrou que a empresa está reduzindo estoques de artigos estampados graças ao uso da tecnologia digital, que permite imprimir pequenos  lotes,  com  estampas  definidas  a partir dos pedidos dos consumidores. “As pessoas estão comprando menos volume e mais variedade. As lojas nos dão esse feedback”, enfatizou.

Um exemplo de loja do futuro, apresentado no evento, é o sistema Echo Park Shops de automóveis, no qual o cliente tem toda a experiência de dirigir e sentir o carro através de uma plataforma digital, podendo escolher acessórios internos que lhe agradam antes de fechar a compra. Só depois desse aval, é que o carro vai para a concessionária para o test drive real. Showrooms de fábrica também são outra experiência que vem crescendo no mercado varejista. No Japão, um laboratório permite testes de seus produtos em uma pequena instalação integrada  à  loja. Ali, o consumidor tem a oportunidade de fazer experimentações antes de se decidir pela compra dos produtos.

Danilo Vasconcelos, gerente geral da ICLP, primeira plataforma global de end-to-end loyalty para o varejo, informa que as pessoas gastam cerca de 500 minutos por dia utilizando algum tipo de mídia digital e estão quase sempre plugadas na internet. “Não existe mais horário nobre de propaganda na mídia. Os consumidores, especial- mente os mais jovens (abaixo de 30 anos), estão 24 horas conectados e são assíduos por interação. A geração Millennials chegou para revolucionar o modo de consumo. Por- tanto, um anúncio nas mídias digitais é muito mais eficiente do que um anúncio nos meios convencionais, como revistas, rádio e TV”, afirma.

O loyalty marketing (programas de fidelização) também foi muito abordado nas palestras. A estratégia, que se baseia em três pilares (captar, reter e fidelizar novos clientes ou os já existentes), porém, precisa se adequar à nova realidade dos consumidores, afinal, o e-commerce no Brasil movimentou R$ 41,3 bilhões em 2015 e, hoje, quase 15% das vendas é feita por dispositivos móveis. Mas, atenção: 97% das vendas do varejo ainda são realizadas em lojas físicas e apenas 3% pela internet. Em todo o mundo, o e-commerce significa menos de 10% das vendas totais, embora as chances de expansão dessa modalidade seja apontada pelos especialistas como promissora.

Por isso, a aposta mais recomendável é a integração entre loja física e virtual. Segundo pesquisa da consultoria Deloitte, em 2015, de cada três clientes que chegaram às lojas físicas, dois foram “fisgados” por meio da mostra virtual do produto.

A tendência é que as pessoas sejam, cada vez mais, influenciadas pelo meio digital antes de fazer as compras. Nos EUA, 67% das vendas efetuadas nas lojas foram resultado de buscas feitas nos dispositivos móveis, demonstra a pesquisa,  acrescentando  que  a maioria das pessoas procura informações no próprio site da empresa, que hoje é tão importante quanto uma fábrica moderna ou uma loja bem equipada.

 

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Por: Marcia Mariano
Foto: Divulgação
Publicada na revista Itt Press Trends, edição 104

Data de publicação: 19/12/2016

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