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A força que vem da Serra

Seis meses depois de ter enfrentado a maior catástrofe natural do País, provocadas por fortes chuvas que mataram centenas de pessoas no inicio do ano, a região serrana do Estado do Rio voltou às páginas do noticiário nacional, desta  vez, por conta de denúncias de corrupção.
Fiscais do Ministério Público Federal apuraram desvio de parte dos R$ 10 milhões repassados para a reconstrução de Nova Friburgo, um dos municípios mais afetados pela enxurrada e deslizamentos ocorridos entre os dias 11 e 12 de  aneiro.
O prefeito em exercício, Demerval Barbosa, investigado por improbidade administrativa, nega as acusações. Enquanto processos correm na Justiça, os municípios mais atingidos pela destruição, como Nova Friburgo, Teresópolis, Petrópolis e Sumidouro, tentam se reerguer. Segundo dados oficiais, 918 pessoas perderam a vida, mas, de acordo com moradores, o número de vitimas pode passar de 1.200, pois há relatos de pessoas desaparecidas e corpos que nunca foram encontrados. Talvez o exemplo mais emblemático deste infortúnio tenha sido o encerramento das atividades da Fábrica de Rendas Arp S/A, que havia completado 100 anos no dia 11 de junho. Já fragilizada por problemas administrativos
e financeiros, a empresa, pioneira na industrialização friburguense, não resistiu à enxurrada que inundou suas instalações e fechou as portas definitivamente no dia 31 de agosto.

Volta por cima

A despeito de toda a tristeza destes fatos e da vergonha que sentimos de alguns homens públicos brasileiros, vale destacar o lado positivo que emergiu desta tragédia: a capacidade das pessoas de se reinventarem. Os empresários do setor de confecções que, junto de seus funcionários, arregaçaram as mangas para começar de novo, muitos do zero, deram um exemplo de criatividade e determinação ao lançarem uma feira itinerante na cidade.
Idealizada pelo Sindicato do Vestuário de Nova Friburgo (Sindvest), com apoio do Sistema Firjan e de outros parceiros, inclusive da Prefeitura, a Satélite Fevest foi realizada entre os dias 27 de junho e 1º de julho nos bairros de Olaria, Conselheiro Paulino e Ponte da Saudade, onde se concentram a maioria das confecções da cidade. “Depois da tragédia, tivemos queda de 70% nas vendas. Foram meses muito difíceis, já que os primeiros sinais de recuperação só começaram a partir de abril. Posso dizer que, de lá para cá, as vendas melhoraram e que as contratações de costureiras na cidade cresceram 20%. Este é um claro sinal de que o polo de moda de Nova Friburgo voltará à normalidade”, declara o empresário Paulo Chelles, presidente do Sindvest e proprietário da De Chelles, uma das confecções participantes do evento.

Plataforma comercial

Considerado um dos principais centros de produção de moda íntima do País, responsável por 25% do faturamento deste setor, Nova Friburgo, mesmo ainda não refeita dos escombros, preparou-se para receber os visitantes. Vieram  distribuidores e lojistas de vários estados para conferir as coleções Primavera/Verão 2011/12 das 60 empresas integrantes do circuito. O município reúne cerca de 940 confecções das cerca de 1.070 existentes no polo da região serrana, sendo 60% micro e pequenas empresas. Durante quatro dias, as vans pintadas de azul, rosa e verde deram um colorido ao cenário marrom que ainda lembrava a terra destruída. A ideia de levar os compradores até as fábricas não foi apenas uma solução encontrada para suprir a falta de uma estrutura de feiras, abalada em razão da tragédia, foi também uma forma de mostrar aos visitantes o quanto a produção têxtil, especialmente de lingerie, é importante para Nova Friburgo.
Além do roteiro comercial durante o dia, à noite os convidados assistiram os desfiles de moda íntima, praia e fitness numa grande tenda montada na Praça dos Suspiros, bem ao lado da Igreja de Santo Antônio, um dos símbolos da cidade parcialmente destruído pelos deslizamentos de lama, que foi restaurado por uma fundação privada. Lançada em 1992 como uma espécie de balcão de negócios – sem estandes e sem desfiles – a Feira Brasileira de Moda Íntima, Praia e Fitness de Nova Friburgo (Fevest) foi se fortalecendo com o passar do tempo, até transformarse no principal evento de moda comercial da região serrana e um dos maiores de lingerie da América Latina. Promovida pelo Sindvest, ganhou apoio de entidades como Sistema Firjan, Sebrae, Abit, Senai, Conselho da Moda, Programa TexBrasil e Prefeitura Municipal, passando a ser realizada no Country Clube da cidade. Em 2009, segundo os organizadores, quando
comemorou 30 anos de existência do polo de lingerie, a feira reuniu 150 marcas, recebeu 30 mil visitantes e movimentou cerca de R$ 30 milhões em vendas.
Diferentemente das edições passadas, o evento, agora rebatizado como Satélite Fevest, teve como principal objetivo ser uma plataforma comercial para as empresas friburguenses. Por conta deste evento itinerante, os hotéis da cidade registraram 92% de ocupação, enquanto bares e restaurantes também disseram ter aumentado as vendas em cerca de 10% durante quatro dias.

Impulso comercial

O resultado foi tão além das expectativas que o Sindvest anunciou a intenção de repetir o modelo em 2012. “O formato agradou e o número de empresas que desejam estar na próxima edição cresceu bastante. Nesta primeira Satélite Fevest participaram tanto confecções com quatro funcionários como empresas com mais de 100 empregados. Isso é fantástico e nos fortalece como polo produtivo”, declarou o dirigente. O presidente do Sistema Firjan, Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, também elogiou a iniciativa: “O evento representa a retomada da economia local depois da catástrofe de janeiro. E o novo formato cria um ambiente positivo para a negociação”. Já o diretor do Sebrae/RJ, Armando
Clemente, destacou: “Esse novo formato está muito interessante e veio provar que, com criatividade, a gente consegue fazer um evento mais eficiente, colocando os lojistas em contato direto com os empresários”. Mesmo bem avaliada, a feira itinerante não foi unanimidade. Houve quem reclamasse do volume mínimo de peças exigido pelos expositores e do valor cobrado para adesão ao circuito. Valéria Lattanzi, da Fábrica de Ideias, empresa organizadora do evento, ressalta: “A percepção geral positiva não anula as críticas, que serão consideradas para que possamos alcançar ainda mais sucesso”. Resta a todos nós, residentes ou não em Nova Friburgo, torcer para que a cidade serrana se reestruture a tempo de enfrentar a nova temporada de chuvas de verão. E que suas empresas continuem honrando a tradição de fazer peças tão essenciais ao vestuário feminino.

De estação de veraneio a polo industrial

Fundada por D. João VI, que costumava ir à serra durante o verão para fugir do calor do Rio de Janeiro, Nova Friburgo ganhou o apelido de “Suíça brasileira” e foi o local da primeira colônia alemã do país em 1824. A cidade também foi estação turística dos barões do café do vale do rio Paraíba que, na segunda metade do século XIX, mantinham ali belas residências de veraneio. Com o declínio da cafeicultura e a chegada do século XX, a região foi virando um centro de comércio, atraindo muitos imigrantes europeus, entre eles, Julius Arp e Maximilian Falck, ambos alemães e considerados os “pais” da indústria têxtil de Nova Friburgo. Arp criou, em 1911, a primeira tecelagem de rendas da cidade e, posteriormente, inaugurou uma confecção com máquinas que trazia da Alemanha. Falck fundou, em 1912, com o sócio Willian Dennis, a fábrica Ypu de suspensórios, ligas, passamanarias e artefatos de couro. Em 1925, foi inaugurada a Fábrica Filó, produzindo fios de algodão, acrílico, fitas e bordados. A partir da década de 50, a cidade ganhou novas indústrias. Em 1953, foi inaugurada a tecelagem Sinimbu S/A, fabricante de rendas e fitas para lingerie e, em 1958, a
Hak Aviamentos de Moda. A estas pioneiras, juntou-se aquela que seria a maior indústria têxtil da região, a Triumph International. De origem alemã, a empresa comprou em 1968 a fábrica Filó e começou a fabricar peças de lingerie. Sendo a única unidade na América Latina, a Triumph chegou a ter 3 mil empregados em Nova Friburgo. O apogeu desta fase terminou com a crise financeira de 1980 – provocada pela dívida externa brasileira e a escalada inflacionária. A Ypu entrou em processo de falência e as demais reduziram drasticamente seus quadros de funcionários, passando a contratar serviços terceirizados. Foi esta mão de obra qualificada, com anos de experiência na produção de têxteis delicados como fitas e rendas, que deu origem ao que é hoje o polo de lingerie de Nova Friburgo. As costureiras demitidas da Triumph se organizaram em pequenas confecções domésticas que se transformaram em micro e pequenas
empresas a partir de 1990. Quanto às fábricas têxteis pioneiras, a única remanescente e prestes a completar um século é a Fábrica Ypu. Desde 2004, a empresa é dirigida por uma administração participativa dos funcionários que lá restaram e que trabalham todos os dias para mantê-la em pé.
Atualmente, o polo da região serrana do Rio é formado por empresas de 11 municípios que, juntos, geram mais de 20 mil postos de trabalho e produzem cerca de 114 milhões de peças por ano.

O desafio de começar de novo

Quando estive em Nova Friburgo para acompanhar a Satélite Fevest, ainda era possível ver as marcas deixadas pela tragédia na cidade: entulhos por todos os cantos e operários e máquinas revirando a terra e seus escombros. Centenas de famílias ainda viviam em abrigos. Nas colinas que cercam a cidade, eram nítidos os sulcos deixados no barro vermelho, sem vegetação. Mas embora tenha abalado as estruturas da cidade, a catástrofe não destruiu os  sonhos e nem a vontade de vencer dos friburguenses, conforme os relatos a seguir:

Erika Mackenzie Neuhaus

“O desastre de 12 de janeiro nos uniu na luta pela superação.”
“Nossa fábrica em Conselheiro Paulino foi totalmente alagada. Cerca de 20 toneladas de tecidos, 30 mil peças e dezenas de computadores foram destruídos, mas a pior perda foi a morte da nossa gerente comercial. Ficamos fechados 20 dias. Porém, a coragem e a determinação para recomeçar não nos faltou”, conta, ainda emocionada, Erika Mackenzie Neuhaus, no showroom da C.C.M. Líder no segmento de fitness e sportwear, está no mercado há 20 anos. Responsável pela loja situada no bairro Ponte da Saudade, Erika conta que a recuperação só foi possível porque contou com a ajuda dos fornecedores que, além de enviarem novos lotes de produtos, dilataram os prazos de pagamentos. A C.C.M, que começou com a maioria das confecções locais fazendo lingerie, decidiu investir no segmento fitness e possui cinco lojas próprias, localizadas em Nova Friburgo, Niterói, Rio de Janeiro e Cabo Frio. Com produção mensal de 20 a 40 mil peças, emprega 120 funcionários e exporta 15% para os Estados Unidos e Europa. Seu foco de mercado se divide em 50% classe B e 50% classe C, que atende com uma linha popular vendida em grandes cadeias de varejo como Lojas Pernambucas, Marisa, Líder, entre outras.

Cristiane Bohrenamen

“Se Deus não me levou é porque preciso completar minha missão.”
A perda do casal Joel e Cristiane Bohrenamen, donos da Tiê Lingerie, foi dramática. “Nossa casa caiu literalmente. Perdemos nosso filho primogênito de apenas 3 anos. Eu, grávida de dois meses, fiquei soterrada por mais de duas
horas sob os destroços. Consegui ser salva por um voluntário de nome João, que jamais esquecerei. Meu segundo bebê é um guerreiro sobrevivente”, relata. Apesar da dor sofrida, Cristiane não esmoreceu e diz que a fé em Deus e o
apoio dos amigos e parentes ajudaramna a superar o trauma. O casal morava no Centro da Nova Friburgo, exatamente na rua Cristina Ziede, manchete em todos os jornais do País por ter tido um quarteirão inteiro arrasado pelos deslizamentos de terra. Como a fábrica ficava na Chácara do Paraíso, bairro menos atingido pelas águas, a Tiê conseguiu manter sua produção. Há 17 anos no mercado, a empresa é especializada em lingerie dia lisa e estampada,  voltada para o público jovem e estilo casual. A empresa só atende ao mercado interno e possui uma loja que vende para atacado e varejo.

Eleonora Erthal

Eleonora Erthal em frente à vitrine da Monthal “Marcas ficam, mas a vida continua.”
Casada com o fazendeiro José Eugenio Erthal, Eleonora Maria Monnerat, cuja união dos dois nomes deu origem à Monthal Lingerie, é uma mulher de fibra. De família tradicional em Nova Friburgo, podia dar-se ao luxo de apenas administrar os negócios, mas ela gosta de colocar, literalmente, “a mão na massa”, quando o assunto é trabalho. “No dia da tragédia eu não estava em Nova Friburgo. Moro em Bom Jardim (município vizinho) e, quando precisei voltar, alarmada com o que tinha acontecido, enfrentei problemas. A queda de uma ponte na BR 116 (altura do km 102) dificultava o acesso à cidade, mas eu tinha que expor na Fenim, feira de moda que aconteceria em Gramado, nos dias 25 a 28 de janeiro. Era a salvação do negócio diante de toda aquela circunstância! Não tive dúvidas e, com alguns funcionários, decidimos agir. Atravessei o rio no bote do Corpo de Bombeiros, coloquei galocha, luvas e escalei o morro, em meio aos destroços e muita lama, para chegar até a fábrica, que estava alagada e sem luz. Consegui salvar as peças de mostruário e levar para o evento. Em 60 dias, num esforço tamanho, a gente produziu as encomendas para
enviar aos clientes do Sul. Esta feira foi a salvação!”, recorda a empresária. Segundo ela, a Monthal só voltou à normalidade em abril. “Passados meses desta tragédia, ainda temos problemas graves com a falta de infraestrutura do município e as ações do governo ainda são muito poucas para melhorá-la”, reclama.

Sheila Lannes

Sheila Lannes, proprietária da Evidenza.
“Contamos com uma rede de solidariedade que nos fortaleceu.”
Com 17 anos de mercado, a Evidenza Lingerie produz 130 mil peças/mês entre moda jovem, linha básica e casual, do P ao GG; emprega 150 pessoas e está investindo para ampliar sua capacidade para 200 mil peças/mês. Tendo entre
seus clientes grandes magazines como Marisa, Casas Pernambucanas, Carrefour e Riachuelo, é uma das poucas confecções da serra a ter estação de CAD, software de criação, e mesa de corte automatizada. “Estamos trabalhando a
todo vapor para entregarmos os pedidos (o mínimo de mil peças) dentro dos prazos. A nossa fábrica não sofreu prejuízo material, mas ficamos parados 15 dias por conta das perdas sofridas por nossos funcionários. Ajudamos no que foi possível, doando eletrodomésticos para os que perderam tudo. Recebemos também muita solidariedade, principalmente dos nossos clientes que doaram roupas de crianças e adultos aos desabrigados”, conta a proprietária Sheila Lannes, que trabalha de uniforme na produção, junto com suas costureiras. Segundo os funcionários, “dona” Sheila é a primeira a chegar e a última a sair da fábrica e faz questão de supervisionar tudo de perto. Foi esta garra da proprietária que garantiu à Evidenza retomar sua produção, poucos dias depois da tragédia, garante Priscila Ribeiro, subgerente de desenvolvimento da empresa.

Neuciléia Layola Porto

Neuciléia Layola Porto, uma das proprietárias da Lucitex.
“Vencemos as dificuldades com muita fé e trabalho.”
Especializada em shapeware (lingerie de sustentação), a Lucitex fabrica também moda íntima para gestante e clássica, produz 200 mil peças/mês, emprega  cerca de 300 funcionários e sua unidade industrial em Nova Friburgo ocupa uma área total de 18 mil metros quadrados. A empresa familiar foi fundada há 25 anos pela costureira Lucy Lima e pelo tecelão Nelson Layola, ambos oriundos da tecelagem Filó, adquirida pela Triumph. Hoje, os quatro filhos – Nelci, Neuceli, Neuciléia e Jonas – ajudam a tocar a fábrica, que já chegou a exportar 8% de sua produção para a Europa e Estados Unidos, mas atualmente destina apenas 1,5% ao mercado externo – Bolívia, Uruguai e Paraguai. “Não fomos atingidos pelas enchentes, mas sofremos como todos na região. A produção ficou paralisada por vários dias e tivemos que trabalhar dobrado para recompor tudo. A situação só começou a se normalizar quatro meses depois”, revela Neuciléia Layola Porto, que cuida da área comercial. Ela elogiou a iniciativa do Sindvest de promover a feira na cidade. “Gostei da ideia de trazer os compradores para visitarem as fábricas, afinal, devido à dimensão da tragédia, muita gente achava que Nova Friburgo tinha acabado”, elogiou a empresária.

No caminho da recuperação

De acordo com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), mais de 60% das empresas da região do polo foram afetadas pelas chuvas e o prejuízo ultrapassou os R$ 150 milhões.
A subsecretária de Planejamento de Nova Friburgo, Valéria Cristina Gomes, confirma que, de todas as cidades, Nova Friburgo foi a mais afetada. “O Governo Federal repassou ao município R$ 10 milhões para obras emergenciais”, disse à nossa reportagem, na época. Parte desta verba, entretanto, segundo denúncias de moradores, foi desviada. A irregularidade levou a Controladoria Geral da União (CGU) a bloquear posteriormente os repasses federais à Prefeitura de
Nova Friburgo e o caso está na justiça. Com um orçamento anual de R$ 350 milhões e cerca de 180 milhões de habitantes, Nova Friburgo não tem condições de se reerguer sozinha. “Nossas prioridades são a construção de casas, pois há muitas famílias desabrigadas, e a recuperação da infraestrutura urbana, que foi destruída. Se não tivermos ajuda federal, será muito difícil”, declarou então Valéria Gomes.

Vocação

A maioria das confecções surgidas em Nova Friburgo a partir da década de 1990 começou com o trabalho incansável de costureiras que foram terceirizadas pelas indústrias onde trabalhavam. Muitas destas microempresas são
gerenciadas por maridos, mulheres e filhos, sendo a única fonte de renda das famílias. O capital para o investimento inicial – entre R$ 12 e R$ 15 mil, em média, vem da venda de um algum bem, na maioria das vezes, o automóvel, ou de indenizações trabalhistas. Empréstimos bancários são a última opção, já que é grande o nível de informalidade, daí o agravante da situação daqueles que perderam tudo com as chuvas. Sem seguro e outras garantias formais, eles ficaram desprovidos de indenizações. Para iniciar uma pequena confecção de lingerie são necessárias três máquinas básicas: overloque, máquina de costura reta e travete, ensina Max Santos, proprietário da Belle de Jour. Com fábrica no bairro de Olaria e loja na Ponte da Saudade, ele é um exemplo típico do empreendedor local. Formado em Estatística, trabalhava como consultor mas, incentivado pela família, decidiu ter seu próprio negócio. “Minha mãe costurava para fora numa Singer zig zag e minha esposa Edna sempre se interessou por moda. Além disso, via colegas e vizinhos prosperando com o negócio de lingerie, então, resolvi arriscar. Vendemos o carro e compramos as três primeiras máquinas. Não paramos mais, até o dia desta tragédia”, conta. Ele não teve a fábrica destruída, mas amargou prejuízos. “A cidade parou literalmente quatro dias. Minha loja ficou fechada quase um mês. O bairro em que morava ficou interditado com a enchente. Conseguimos salvar o estoque da loja e levamos para uma casa no Espírito Santo, foi o que nos salvou”. Max Santos diz que maior que o prejuízo financeiro foi o abalo emocional sofrido. “Minha esposa chegou a ser colocada na lista de desaparecidos e minha filha adolescente perdeu suas amigas de escola. Sinceramente, pensei em deixar Nova Friburgo para sempre”. O que fez o empresário desistir da fuga
foi o amor pelo que faz. “É gostoso produzir e vender lingerie, pois você vê a satisfação no rosto da pessoa na hora da compra. Diferente do vestuário que você usa para mostrar para outros, a lingerie é seu momento íntimo. Por
isso, as clientes são mais exigentes com modelagem e conforto”, explica. A Belle Lingerie, segundo ele, produz 4 mil conjuntos/mês, vende em sua loja cerca de 200 e possui uma carteia de 600 clientes. A empresa também comercializa alguns modelos sob encomenda. Max Santos não se inscreveu no circuito Satélite Fevest, mas torce pelo sucesso do evento e já pensa em aderir, caso o modelo se repita ano que vem. “Foi importante, pois resgatou a autoestima da cidade, afinal, temos que celebrar a vida”.

Parcerias

O Nordeste hoje desponta como principal concorrente da região serrana do Rio na produção de lingerie, mas os friburguenses garantem que vão continuar investindo para se manterem na liderança. O design e as matérias-primas são os principais diferenciais da lingerie feita em Nova Friburgo. Entre os principais fornecedores estão empresas têxteis de porte como o Grupo Rosset, Santaconstancia, TDB, Marles, Doutex, Silvatex, Conformatec, Coltex, entre outras, além dos fabricantes de fios como Invista (Lycra®) e Rhodia (Amni). Para Robson Poubel Berbt, dono da confecção Femme Fatalle, a tendência do setor é a especialização. “O polo surgiu a partir dos fabricantes de lingerie noite e da linha básica, mas nos últimos anos a produção tem se diversificado, principlamente com o aumento do fitness, moda praia e lingerie de atributos”, comenta. Sua empresa, especializada em linha modeladora, corsets, corselets e espartilhos, produz também tamanhos plus size (do 48 ao 54). A empresa, que investe em qualidade, contrata consultoria do Senai para desenvolvimento de produtos e está sempre se atualizando por meio dos books de moda. Segundo Robson, são fabricados por mês 24 mil conjuntos, dos quais 30% são comercializados na loja de fábrica e 70% distribuídos para pequenos atacadistas. “Friburgo foi praticamente construída por costureiras e será reconstruída por elas. Vamos continuar fazendo lingerie bonita para mulheres ousadas, determinadas e que amam a vida”, afirma.

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Por: Marcia Mariano
Fotos: Adriano José e Marcia Mariano

Data de publicação: 05/01/2012

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