Language
home » moda & varejo »

Marketing

Tamanho do texto  A A A
Compartilhar

O novo made in China

A Les Lunes, marca de moda sediada em Paris e São Francisco, aprovisiona as peças de vestuário numa fábrica no distrito de Qingpu, nos arredores de Xangai. Nessa fábrica, revela o portal Fast Company, é possível encontrar os filhos das costureiras a brincar em espaços criados para os receber e, na hora de almoço, os trabalhadores reúnem-se numa divisão ensolarada para comer e conversar. Muitos são amigos próximos, trabalhando na fábrica há décadas. Este parece um mundo distante da típica imagem da vida fabril na China.

«Ao contrário de outras partes da China, onde os trabalhadores migram de outras cidades para trabalhar em fábricas, todos os 50 funcionários são da aldeia onde a fábrica está localizada», explica Anna Lecat, fundadora e CEO da Les Lunes, ao portal.

Depois de mais de duas décadas a trabalhar com fábricas do país, Lecat quer mudar a perceção de que o “made in China” se traduz em trabalhadores mal tratados e produtos de má qualidade. Não está sozinha. Uma vaga de empresas de moda ocidentais que se concentram na produção ética – incluindo a Grana, Ellie Kai, Everlane e Caraa – está agora a apostar numa nova geração de fábricas chinesas que paga salários dignos aos trabalhadores, oferece condições de trabalho agradáveis e horários razoáveis e produz vestuário, calçado e acessórios de qualidade.

Nos últimos anos, os consumidores estão cada vez mais conscientes sobre questões de aprovisionamento. Mas, segundo Marshal Cohen, analista de retalho no grupo NPD, os clientes estão dispostos a pagar mais 10% a 15% por vestuário produzido de forma ética.

Como resultado, uma série de startups de moda optou por produzir os seus produtos nos EUA para oferecer aos clientes mais transparência. O movimento está alinhado com o esforço para trazer a produção de volta à casa (reshoring) – em parte devido a uma crescente frustração pela perda de empregos industriais para os trabalhadores estrangeiros. Ainda assim, como a economia de mercado mantém a maioria das fábricas no exterior, algumas empresas estão a argumentar que as fábricas chinesas não são tão más como se faz parecer e que o “made in China” não implica necessariamente baixa qualidade.

Condições de trabalho

Ao longo dos anos, Anna Lecat sempre teve facilidade em encontrar fábricas que combinem com os seus valores em Xangai. Lecat defende que a produção de alta qualidade está muitas vezes – embora não sempre – ligada a melhores condições de trabalho. Em Xangai, uma cidade próspera, é difícil encontrar trabalhadores de fábrica, por isso os empregadores precisam de competir por talento: isso significa oferecer melhores salários e benefícios. Por conseguinte, isso leva a um menor volume de negócios e, por consequência, os trabalhadores tendem a ter mais experiência nas suas tarefas. No caso da Les Lunes, isto significa que as costureiras são hábeis a costurar tecidos delicados e a lidar com rendas complexas.

As condições de trabalho nas fábricas chinesas estão em trajetória ascendente, de acordo com o investigador Keegan Elmer, da China Labour Bulletin, organização que apoia os movimentos de trabalhadores na China. Mas isso não quer dizer que sejam universalmente éticas. «Um dos problemas com a avaliação do estado da fábrica chinesa é que as coisas são muito irregulares», ressalva Elmer.

Os padrões do local de trabalho podem variar por província e região, por exemplo. Em 1980, Pequim designou as regiões de Shenzhen, Guangzhou, Hong Kong e Macau como zonas económicas especiais, oferecendo incentivos fiscais aos empresários chineses e ao investimento estrangeiro para a criação de unidades fabris. Empresas de todo o mundo reconheceram ali uma oportunidade para tirar partido de uma força de trabalho barata e muitas marcas americanas e europeias começaram a deslocalizar a sua produção para a China. Atualmente, a área representa apenas 5% da população do país, mas produz um quarto das exportações.

Para acompanhar este volume de produção, os proprietários das fábricas de Shenzhen dependem do fluxo constante de trabalhadores de regiões próximas em busca de oportunidades. A maioria trabalha durante curtos períodos e, depois, muda-se para as cidades em busca de empregos mais bem remunerados e menos servis – ou regressa a casa com mais de dinheiro no banco. Essa cultura de trabalhadores migrantes de curto prazo significa que os proprietários de fábricas tendem a tratar os funcionários como substituíveis, pelo que não se incomodam em investir em bons salários ou em locais de trabalho agradáveis. Com falta de formação ou experiência, não surpreende que os produtos que fazem tendam a ser de má qualidade.

Mas mesmo em Shenzhen, a cultura de fábrica de vestuário está a começar a mudar. Muitos locais de trabalho tornaram-se mais limpos, mais seguros e mais profissionais. O trabalho em si tende a ser menos árduo e os trabalhadores tendem a trabalhar menos horas. Depois de anos de greves – e de três décadas da política do filho único ter limitado a população ativa –, os trabalhadores migrantes viram o seu poder crescer ligeiramente, à medida que uma geração com mais formação ingressou na força de trabalho.

De acordo com Benjamin Cavender, diretor do China Market Research Group, as fábricas estão também a automatizar cada vez mais as suas linhas de produção, o que significa menos tarefas de trabalho intensivo para os trabalhadores.

As grandes marcas internacionais estão a pressionar as fábricas com as quais se associam a transformar os edifícios em espaços mais ecológicos, bem como a procurar garantir que os trabalhadores sejam tratados com justiça.

O governo chinês também procurou criar proteções para os trabalhadores, incluindo contratos escritos e compensação por despedimento. No entanto, refere Elmer, muitas fábricas não pagam aos trabalhadores todos os benefícios que lhes são legalmente devidos. «Há problemas universais mesmo em algumas das melhores fábricas», admite. «Na realidade, em muitos casos, estes seguros sociais são mal pagos ou nem chegam a ser pagos. Isso motiva greves e protestos regulares dos trabalhadores».

Não obstante, este progresso foi uma das principais razões que fez com que Liz Hostetter encontrasse uma confeção em Shenzhen quando lançou a marca de vestuário feminino Ellie Kai, há cinco anos. Hostetter estava a viver em Hong Kong desde 2008 e reconheceu a próspera indústria de confeção na cidade. Assim, fundou a Ellie Kai, que permite que as clientes escolham de uma seleção de peças e tecidos e, de seguida, os personalizem. Os produtos chegam à casa da cliente três semanas depois do pedido.

A deslocalização

Contudo, o movimento em direção a fábricas mais éticas na China não sinaliza uma tendência global. Cada vez mais, as empresas chinesas procuram mão-de-obra barata noutras regiões da Ásia e no resto do mundo, perpetuando os padrões que outrora governaram Shenzhen. Muitos empresários começaram a comprar fábricas no Vietname, Índia, Malásia ou Sri Lanka.

Na esperança de conter a maré de deslocalizações de fábricas para outras regiões da Ásia, o governo chinês passou a oferecer subsídios às empresas que apenas se mudassem para outras regiões dentro da China, onde os salários podem ser até 30% mais baratos.

Face à deslocalização, uma subdivisão de fábricas chinesas está a estabelecer uma cultura de produção premium, afirma Luke Grana, fundador da Grana, empresa de vestuário com sede em Hong Kong.

A Grana compra linho da centenária Baird McNutt, na Irlanda, lã merino do grupo Albini e popelina de uma empresa familiar em Avignon, na França. As matérias-primas são enviadas para um conjunto de fábricas em Huzhou e Guangdong, não muito longe de Hong Kong, onde fabricantes de vestuário sabem cortar e costurar esses materiais caros adequadamente. «São realmente especialistas e técnicos qualificados», garante Luke Grana.

 

O Portal Textília.net não autoriza a reprodução total ou parcial de qualquer conteúdo aqui publicado, sem prévia e expressa autorização. Infrações sujeitas a sanções.

por Portugal Têxtil
https://www.portugaltextil.com/o-novo-made-in-china/

Data de publicação: 31/05/2017

Conteúdo relacionado


Farfetch e Condé Nast juntas no conteúdo e comércio
A parceria reúne o conteúdo editorial premium da Condé Nast e a plataforma global de comércio eletrônico da Farfetch para criar uma experiência editorial consistente de compras  2017-06-13 - Tags: farfetch conde nast comercio conteudo experiencia editorial compras premium

Setor de Varejo é impulsionado pela retomada dos agentes econômicos
O setor de Varejo é reconhecidamente um dos mais nervosos dentro da dinâmica estrutural brasileira. Entendido como gerador do maior número de empregos formais no país, é tido como o primeiro ambiente que sente crises e o primeiro que reflete as melhorias no quadro econômico nacional.  2017-06-09 - Tags: varejo world trade center association wtc business club

Associados do Sinditêxtil-SP doam mais de 54 mil uniformes à Prefeitura de São Paulo
O Sinditêxtil-SP (Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Estado de São Paulo) viabilizou a doação ao município de São Paulo, por meio de empresas associadas do setor têxtil e de confecção do Estado, de 54.500 peças de vestuário, divididas entre colaboradores das 32 prefeituras regionais e os 2.500 agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).  2017-06-09 - Tags: cet sinditextil prefeitura de sao paulo joao doria

LACOSTE lança nova campanha
LACOSTE lança nova campanha "Life is a beautiful sport" desde 1933. A marca imaginou uma transição entre esses dois campeões: René Lacoste e o novo Crocodilo, Novak Djokovic.  2017-06-02 - Tags: lacoste campanha lancamento filme moda novidade

CDL BH promove dia de venda sem impostos
Mais de 41 mil unidades de produtos serão comercializadas sem o valor dos impostos, na capital mineira, no dia 1º de junho. Entre os itens estão cerca de 1,2 mil tipos de medicamentos genéricos, mais de mil artigos de ótica, entre outras centenas de mercadorias como brinquedos, vestuário, acessórios e móveis.  2017-05-25 - Tags: cdl bh impostos campanha comercio dia da liberdade de impostos dli

Bia Aidar diz que moda brasileira precisa encontrar seu DNA
Em entrevista exclusiva ao Portal Textília.net, Bia Aidar, que se declara apaixonada pelo jeans, também comenta sobre e-commerce, blogs e comportamento do consumidor nacional. Confira!  2017-05-19 - Tags: bia aidar consultoria de moda senac moda informacao identidade de moda entrevista

Consultoria e delivery para a moda plus size
Público plus size ganha serviço de consultoria de moda personalizado e delivery inédito no Brasil . Personal Stylists da Upperbag fazem a curadoria de roupas, acessórios e cosméticos do cliente via questionário e análise de redes sociais e montam opções que são enviadas para a casa do cliente gratuitamente  2017-05-18 - Tags: plus size delivery consultoria moda upperbag

Moda Inclusiva criada por pessoas com transtornos mentais
A colaboração entre seres humanos foi o ponto de partida para o projeto que a Cavalera lança em parceria com o coletivo C.U.P.I.N.S (Central Unida de Pessoas Inventando Novas Saídas) neste mês de maio. Dessa collab nascem seis estampas criadas a várias mãos que dão vida às t-shirts genderless sustentáveis.  2017-05-15 - Tags: cupins cavalera transtornos mentais moda inclusiva ecotece

Coven lança etiqueta infantil em Belo Horizonte
Marca apresenta The Little Coven, linha com peças em edição limitada para meninas de 6 a 12 anos  2017-05-12 - Tags: coven minas gerais etiqueta infantil belo horizonte

Campanha com mães famosas e suas filhas
O Cantão lança sua campanha comemorativa dos seus 50 anos de história na semana das mães. A marca carioca que comemora o marco durante todo o ano de 2017 convidou mães e filhas que permeiam a história da marca para posarem com suas filhas para a campanha Gerações.  2017-05-12 - Tags: cantao maes famosas filhas publicidade campanha rio de janeiro artistas

Acessórios para presentes
Presentear alguém tão importante quanto a figura materna não é das tarefas mais fáceis. Pensando nisso, a Emilio Pucci apresenta uma seleção especial de bolsas e acessórios para essa data especial.  2017-05-10 - Tags: emilio puci presente acessorios maes clutches bolsas brasil

Novo Show Room foca em B2B
Seguindo uma rica experiência, respectivamente, na indústria da moda e no desenvolvimento da web, o showroom online See Now Buy Now apresenta uma solução inovadora para a indústria e o varejo de moda realizarem negócios juntos.  2017-05-05 - Tags: show room b2b experiencia see now buy now

Casa de Criadores comemora 20 anos com apoio da Vicunha
Vitrine de novos talentos da moda, o Casa de Criadores celebra 20 anos em 2017, com a missão de revelar futuros estilistas brasileiros. Em sua 41ª edição, nos dias 8 a 12 de maio, o evento contará novamente com apoio da Vicunha Têxtil, que há mais de 10 edições investe em jovens criadores, fornecendo tecidos versáteis para a criação de looks autorais e inovadores.  2017-05-03 - Tags: casa de criadores spfw vicunha textil lucas romano acrvo

Começa a Febratêxtil 2017, com a produção têxtil apresentando recuperação
Começou hoje (25) e termina dia 28 de abril, no Anhembi, na zona norte de São Paulo, a FEBRATÊXTIL – Moda & Negócios, no horário das 14 às 21 horas. No mesmo local, estarão reunidos expositores de todos os segmentos da cadeia têxtil e de confecção  2017-04-26 - Tags: iemi marcelo prado mercado febratextil vestuario producao textil

É preciso saber vender para os brasileiros
Nesta edição, trazemos uma entrevista exclusiva com o atual secretário de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), que nos revela uma série de iniciativas que o Governo Federal está tomando para facilitar as transações comerciais, avançar nos acordos internacionais e promover a cultura exportadora em nosso país.  2017-04-26 - Tags: editorial 104 textilia maria jose de carvalho publisher

Sebrae auxilia pequenos empresários com inteligência competitiva
Como os empresários do segmento de moda/vestuário podem conhecer e aplicar as tendências do mundo a moda a seus negócios? O Boletim do Sistema de Inteligência Setorial (SIS) do Sebrae apresenta dicas empreendedores para transformar tendências de mercado em novas oportunidades reais de negócios.  2017-04-20 - Tags: sebrae sistema de inteligencia setorial gestao na moda cool hunting