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O denim torna-se mais verde

Aos 50 anos, Marcel Imaizumi se considera no quarto ciclo da vida pessoal e profissional: o ciclo da senioridade, depois da infância, da adolescência e da maturidade. Nessa etapa, depois de 27 anos junto a uma das mais importantes indústrias de denim da América Latina, a Vicunha Têxtil, sua preocupação continua direcionada ao desenvolvimento da empresa, mas com um detalhe: ele está se organizando para deixar o legado à próxima geração, que já vem sendo preparada para dar prosseguimento à história de sucesso da companhia no Brasil e no mundo. Uma palavra resume este momento: sustentabilidade. Imaizumi e a diretoria, que lutam bravamente pela continuidade da produção, estão no processo de valorização do DNA “verde” da Vicunha, buscando reconfirmar, a cada ação e a cada novo produto, o compromisso com o tripé do ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável. Confira a entrevista:

ITT: Qual a produção e onde a Vicunha está presente hoje?

Marcel Imaizumi: Nossa escala, hoje, é de 17 milhões de metros por mês. Estamos em todos os países do México para baixo. Na Europa, onde não há confecção, atendemos as cadeias da Espanha, Portugal, Itália e uma na Alemanha. Vendemos também para o Norte da África e Ásia. Nós não atendemos mercado norte-americano, pois ele é massivo e inconsciente, modelo que não é leal, não reconhece qualidade e busca preço. Para nós, não interessa. Se ele não é leal, não queremos.  Vicunha

ITT: Que mercado é mais leal?

Imaizumi: O brasileiro. Não tenho dúvida. A infraestrutura do nosso showroom foi feita para o Brasil, pois entendemos as deficiências e necessidades de sobrevida. Nosso lançamento de coleção acontece em dois meses, cheio de gente fazendo pesquisas. Tenho seis pessoas que só fazem esse atendimento, que não é venda, é assistência. Eles entendem o cliente e mostram peças, e os compradores fazem fotos, tomam notas, têm referências de tecidos, indicações de pessoas para fazerem daquele jeito. Não cobro nada por isso. Quanto vale para o cliente? Muito. E para nós? Mais ainda. Já o mercado americano me troca por cinco centavos. Levo coleções lindas, e o americano corta um pedaço, manda para Turquia, Índia, Ásia. Perguntam: quem pode fazer? Num mundo de cinco bilhões de metros, muitos podem fazer.

ITT: Depois de 27 anos de Vicunha e de ter conquistado tantas vitórias e superado tantos desafios, quais são seus objetivos principais, atualmente?

Imaizumi: Eu vejo a vida em ciclos. Há a infância, quando não sabemos nada. Depois, tudo muda muito rápido e não sabemos o motivo, quando começa a adolescência. Depois vem a maturidade e, posteriormente, a senioridade. Os 50 anos de vida são essa mudança da maturidade para a senioridade. Assim também é a vida profissional. Você começa como assistente, ajudante, trainee e é guiado no processo, como na infância, quando você toma tombo e alguém te ensina a caminhar. De repente, sem querer, você se transforma em um profissional pleno, depois em um supervisor, um coordenador, um chefe, um gerente e, um dia, torna-se um diretor. Existem essas curvas e missões em cada ponto das fases. Eu iniciei o ciclo 4 da minha vida e estou nesse mesmo estágio na carreira. O que posso deixar para as próximas gerações a partir de agora? Qual será meu legado? É preciso desejar ser reconhecido no mundo, porque, em duas gerações, irei sumir. Quem se lembra quem foi seu bisavô? O que ele fez e o que ele deixou para sua família além do DNA? Há duas maneiras de perpetuar a nossa existência, pelo DNA biológico ou pelo DNA organizacional por meio de profissionais que ajudamos a criar. Seremos reconhecidos pela qualidade dos filhos e dos colegas de trabalho e funcionários que deixamos no mundo. A maioria dos profissionais dessa organização Vicunha já está no ciclo 4 da vida. Agora é hora de deixar pronta a empresa para a nova geração. Temos que estar seguros de que quem está no ciclo 3 já compartilha dos valores 4. Assim como eu, a diretoria está em debates internos buscando fortalecer os valores que queremos deixar, com os quais a empresa deve ser reconhecida hoje e no futuro.

ITT: Como foi acompanhar a evolução da Vicunha em todos esses anos de atuação?

Imaizumi: Essa empresa passou por grandes transformações, e estou aqui há 27 anos. Comecei aos 24, quase na minha infância profissional. Eu acompanhei a transformação desse grupo. Pense numa atividade têxtil, e nós estávamos lá. Na fibra, na fiação, na malharia, no social, na linha de costura, na confecção... Nós estivemos em todos os elos e descobrimos, por meio de uma experiência dolorosa, que não podemos estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Sentimos a dor do crescimento. Tivemos que nos recriar e isso doeu muito. Descobrimos que é preciso primeiro morrer e continuar com o esforço para começar um novo ciclo. Há sempre dúvidas: estou acertando? Quando começa um novo ciclo, e é isso que começamos agora, vem outro nível de maturidade. Essa é a hora perigosa, pois entramos numa zona de conforto. Nós, da diretoria, não deixaremos a organização na zona de conforto, e mudaremos sempre, surpreenderemos sempre. Se pensarmos no momento atual, podemos afirmar que, como líderes de mercado, estamos perigosamente confortáveis. Agora que estamos aqui, estamos atrás de outros sonhos. Estamos registrando tudo para que a próxima geração possa compreender o que fizemos. Pode ser que eles mudem tudo, mas parte disso permanecerá no discurso.

ITT: Assim como você, o Brasil começa um momento de novo ciclo, buscando maior maturidade para sua trajetória econômica. O que tem a dizer sobre isso na sua visão de executivo para este País?

Imaizumi: Quando olhamos o panorama macroeconômico, temos certeza de que o Brasil não pode mais se isolar. As mazelas que sofremos vêm justamente de um mercado protecionista, fechado. A mentalidade do empresário têxtil é consequência do modelo no qual nascemos e fomos criados. Nunca tivemos um modelo exportador. Nunca nos preocupamos em ser competitivos e atender as demandas do mundo. A empresa têxtil no Brasil sempre foi assim: queríamos servir o Brasil. Isso é diferente, pois, no momento quando o Brasil se abre para o mundo, o planeta já está diferente. Há dois mercados gigantes que todos olham e querem: o de massa americano e o europeu. O mundo têxtil sempre quis esses mercados, mas nós, no Brasil, não nos preocupamos com isso.

ITT: Quando você diz que o mundo mudou, isso significa que o País perdeu as oportunidades de expansão?

Imaizumi: Para um melhor momento, seria necessário que fôssemos sempre competitivos, com parques tecnológicos modernizados, pesquisas de entendimento de tendências... A internet fez com que todos se comunicassem e o mundo segue rápido, mas o Brasil não. A indústria não está preparada para o novo mundo. Um problema do Brasil é que somos fechados e nos mantemos olhando a crise do ponto de vista de nosso umbigo. O mundo está diferente, pois atingimos um estágio de consciência global grande, por causa da internet. O futuro consumidor irá chegar com uma carga de informação e nível de consciência cada vez maior.

ITT: O que busca, então, esse novo consumidor?

Imaizumi: A nova geração é fiel a valores. Uma parcela da juventude é consciente sobre o meio ambiente, a comida, valores corretos de vida. A ética e os valores são corretos e claros, por isso o caminho agora é acertar a conduta. O que vejo na questão da sustentabilidade, especialmente no Brasil, é que engatinhamos, estamos nos primórdios evolutivos. O Brasil não tem aterros sanitários, e sim lixões. Temos um problema grave com o nosso lixo. Na Europa, ou você recicla o lixo ou queima para gerar energia. Não existem mais aterros. Esse é o caminho: reciclagem e reuso, pois os recursos são limitados e hoje ainda mais. A pressão populacional é gigantesca e traz oportunidades para o País.

ITT: Que oportunidades seriam essas?

Imaizumi: O Brasil cumpre as exigências de sustentabilidade social. Nós, por conta da formalização das imposições das normas da indústria – que algumas vezes são exageradas –, temos oportunidade de nos vender com o princípio de que, se comparado com o mundo neste pilar, possuímos um formato de destaque, mas não trabalhamos isso. Onde o Brasil falha? Na questão da sustentabilidade ambiental. Precisamos compreender que não é só fazer tratamento de água bem feito, pois isso é obrigação legal. O Brasil tem regras claras e cada vez mais duras de proteção ambiental, diferentemente de países como Haiti, Índia, Bangladesh e até alguns da América Central. Porém, fazemos pouca promoção disso. O poder público também falha, pois não consegue tratar os resíduos sólidos. Mas isso não impede que o setor privado faça parte dos esforços.

ITT: A gestão governamental quer absorver tudo!

Imaizumi: Quem faz tudo, não faz nada. Mas, na verdade, o desafio do governo é muito amplo num país como o Brasil. Há problemas básicos a serem resolvidos e outros muito sofisticados. O Brasil precisa controlar o orçamento. Precisamos saber o que ganhamos e o que gastamos, e o governo tem essa missão. Mas é difícil, pois há muitos filhos nessa casa. Eu acho que não podemos misturar as coisas. Temos que criar visão onde o país dependa cada vez menos das ações governamentais. Essas atitudes podem, sim, ajudar a acelerar o processo de reconstrução, mas acho que o setor privado tem questões pendentes, entre elas, se posicionar claramente a essas mudanças via entidades. Internamente, acho que as empresas precisam se preparar para o ambiente mais competitivo. Temos que parar de ficar com medo do que será importado. Isso é protecionismo. Temos bastante a oferecer para o mundo e precisamos confiar no que estamos fazendo. Vou dar um exemplo: não existe projeto de reuso de água industrial no Brasil. A Vicunha está brigando com todo mundo por essa legislação: governo do Estado, governo federal... Acreditamos que esse é o futuro, o que a Europa quer e o que nós queremos! Temos que usar os recursos de maneira inteligente. ITT: Que caminhos estão sendo seguidos? Imaizumi: Não existe indústria têxtil no mundo que não gaste água, mas precisamos gastar menos. Temos que ser transparentes em tudo o que estamos fazendo. Temos que transformar nosso trabalho sustentável em produto, mas é o varejo que tem que promover essa mudança. Você tem, por exemplo, linhas nas marcas que falam de uso de orgânico, outras linhas ecológicas...

ITT: O consumidor já está, então, atento ao consumo consciente, especialmente na questão das matérias-primas?

Imaizumi: As empresas reconhecem que existe o consumidor consciente, mas não adianta sonhar, pois não há algodão orgânico para a população inteira. O Brasil é o maior produtor de algodão BCI (Better Cotton Initiative) do mundo, uma organização sustentada por grandes empresas que miravam o algodão feito na Índia e Bangladesh, microfamílias que contaminavam o solo pelo uso equivocado de produtos químicos, que causavam, especialmente, muitos danos aos trabalhadores... Existe uma organização que define padronizações, e a grande finalidade disso é criar essas iniciativas sustentadas pelos pilares econômico, ambiental e social. As ações do BCI já acontecem há muito tempo, com a diferença de que o Brasil traz um profissionalismo ao tema. Aqui, quem manipula químicos é todo protegido, tem apoio para uso correto do pesticida. As fazendas são organizadas, têm creches e moradias para trabalhadores e seus filhos. O Brasil já tem uma estrutura de plantio qualificada. Quando olhamos os pré-requisitos para a certificação BCI, vemos que 90% do algodão nacional atende às demandas. O Brasil é o maior produtor BCI do mundo. Os Estados Unidos são maiores que o Brasil e não adotam BCI pela razão econômica. Ser sustentável custa dinheiro.

ITT: Isso se torna uma excelente oportunidade para superar a crise...

Imaizumi: Temos que calcar as ações onde somos bons, e não onde somos ruins. O mundo está lamentando e se defendendo das deficiências das empresas do setor. Nós lamentamos, sim, juntos, mas trabalhamos a fortaleza. Temos que lembrar que a Vicunha, por opção empresarial, foi para o exterior há muito tempo. Entrei em 1991 na empresa e, no ano seguinte, abrimos a Brastex, que é a Vicunha Argentina. Nossa exportação sempre ocorreu, mas nos estruturamos em escritório a partir de 1992, primeiro no nosso quintal, nossos vizinhos latinos, e depois expandindo para o mundo. Nossa plataforma tem dois vetores de crescimento: aumentar o número de clientes ou vender mais em cima dos mesmos clientes. No Brasil, já vendemos para 90% do mercado. Não há espaço de crescimento e, por uma condição de risco e de capacidade econômica da base dos meus clientes, não consigo crescer. Ou porque não há mais crédito ou porque a base não consegue comprar mais. O caminho é, então, o exterior.

ITT: O fato de muitos empresários não se interessarem pelo crescimento devido à complexidade fiscal influencia nesses cenários?

Imaizumi: A minha base está chegando a seu teto da ‘simplicidade fiscal’. Porque, no Brasil, todos querem ser enquadrados no Simples, não pela facilidade de atuação, mas pela área fiscal. Isso impede que as confecções cresçam e sejam eficientes. A microempresa não é eficiente. Ela pode ser barata, mas essa escolha é cara, pois não traz padronização, escala, qualidade e custo. O Simples pode beneficiar somente o empresário, mas o negócio não é viável pela microprodução.

ITT: A nova geração está em busca de mudanças nesse sentido?

Imaizumi: Toda empresa nasce pequena. Sabemos que há mortalidade grande nas pequenas empresas. O jovem, hoje, é empreendedor. Ele tem uma mentalidade toda nova, cria oportunidades de negócios. Mas a indústria têxtil é antiga, centenária, chata, hierárquica. Não a moda, mas quem faz fio, malha, índigo, brim. Essa indústria não tem nada a ver com o jovem de hoje. Mas tenho que falar a linguagem dele. Tenho que ter na cadeia produtiva algo que seja importante para essa nova classe de consumidor. No que estão interessados? Sinceramente, não sei se o Brasil é futuro para a indústria têxtil. Tenho minhas dúvidas. Daqui a uma ou duas décadas, sim, mas o Brasil não pode perder a visão de que continuará agrícola. Dentro dessa base, temos ouro branco, algodão. Se formos espertos, algumas empresas entenderão isso e tirarão vantagem na verticalização do território.

ITT: O algodão, então, é um diferencial tanto na qualidade quanto na capacidade de produção.

Imaizumi: O Brasil tem outra vantagem: duas safras por ano. No exterior, é uma safra por ano. Então, ou planta-se algodão ou alimento. Nosso clima permite esse patrimônio. O algodão é uma pauta importante, mas não está sozinho. O que diferencia o Brasil é o formato profissional do plantio do algodão, alinhado com o americano. E podemos nos aproveitar disso. O algodão do Brasil tem característica impositiva, que o qualifica como parte das melhores práticas de plantio, tanto ambiental, social, quanto economicamente. Logo na matéria-prima, o Brasil traz iniciativas para o discurso sustentável. Não adianta termos DNA sustentável se a transformação da cadeia têxtil não seguir padronizações. A Vicunha tem essa preocupação, mas há outro elo: a confecção e a lavanderia. É a continuidade do conceito sustentável, especialmente no denim, que nos interessa e preocupa. Acompanho essa transformação e vejo: quando o varejo inicia uma campanha, o cliente logo percebe a necessidade. É só olhar as gôndolas de iogurte, não é uma profusão de marcas, mas agora eles vendem conceitos de saúde, bem-estar, orgânico... Porque está ocorrendo isso? Por que a indústria ou o supermercado querem? Não, é um nicho em crescimento. Como empresas, temos que ter ações, não somente de produção de uma linha eco, que é consequência. Isso não pode ser blá blá blá de marketing. Quando olharmos todos os pontos, temos que ter respostas sobre nosso DNA sustentável. Temos que deixar clara a mensagem. Não podemos ser hipócritas. Temos que ter fundamentos.

ITT: Qual o perfil de cliente que foco para o serviço do eco?

Imaizumi: Aquele que tem consciência de quem ele é no mundo. Muitas marcas são claras no que nasceram para fazer. Algumas nascem com o DNA sustentável. As grandes marcas, especialmente as europeias, querem ter as coisas feitas da maneira correta pagando igual. Temos uma missão de mostrar o que é possível fazer.

ITT: Como foi o desenvolvimento desse projeto de sustentabilidade na Vicunha?

Imaizumi: É um projeto de vida. Quando você olha o processo, confirma que há 15 anos fazemos isso. Mas não queremos só pegar e reciclar. Buscamos o know-how de misturar, transformar, fiar... Isso demanda investimento. É um processo de mais de 15 anos. No começo, eram tantos resíduos que não havia gente para comprá-lo. Tínhamos que descartar. No Nordeste, fazia-se rede para o mundo inteiro com os resíduos. A primeira linha eco surgiu de uma necessidade, uma solução para um problema específico e em grande escala. Lógico que há pressões. O processo deve ter menor relação de banho, tempos menores, eficiência energética... Tudo é sustentabilidade, mas há um fundamento no custo. Sem querer, as pessoas que investem em custo de processo acabam indo para a sustentabilidade, são coisas interligadas. Quando falamos que temos um processo que gasta menos energia, quanto impacta no resultado final? Menos uso de água, além de melhores valores. Pelo processo todo, ganhamos mais água para beber. Quantos copos de água há em um quilo de algodão manufaturado? Cerca de 15 mil litros! Em termos de resíduo sólido, se ele vai para o aterro, quanto terreno e tempo ocupará? No Brasil, o final da roupa é o aterro. Na Europa, recicla-se muito. Na Tunísia, recebem contêineres e contêineres de roupas, fazem as separações e aproveitam tudo. A em melhor estado é utilizada para venda no Norte da África e, depois, para a África inteira. O que não é utilizado como roupa é reciclado. Dos materiais, eles reciclam metais, separando-os por tipo. Quando os tecidos de algodão são selecionados, há um destroço e um desfibramento, virando um fio grosso. O que sobra vai para a indústria automobilística, isolamentos térmicos e acústicos... Em último lugar, há a fibra de poliuretano que vira colchões e, no final, a manta térmica. A indústria tem uma reciclagem natural: fazemos isso de maneira consciente. Há resíduos que são capazes de serem reciclados. Hoje, há reuso de dois a dois milhões e meio de metros. Não é uma questão de eficiência, e sim de desenvolver coisas internas para consumir menos os recursos.

ITT: Há questões também que não são medidas, como as economias diversas causadas pelo foco na sustentabilidade.

Imaizumi: Quantos litros de água – em relação aos quilowatts - podem ser economizados se trocarmos 25 mil lâmpadas fluorescentes por led? Temos seis unidades: Rio Grande do Norte (1), Ceará (3), Argentina e Equador. Todas seguem o mesmo conceito das melhores práticas sustentáveis. Não é uma fábrica, são todas elas, é o nosso grupo confirmando o conceito de eficiência energética, reciclagem, uso racional de recursos. Estamos desenvolvendo com os fornecedores de química processos mais secos. Muitas vezes, não temos solidez nos processos curtos.

ITT: O que pode trazer maior sustentabilidade e economia: a mudança na indústria química ou na tecnologia dos equipamentos?

Imaizumi: Cerca de 70% das necessidades podem ser superadas com tecnologia de máquina e 30% na química. A tecnologia é alterada e customizada; em alguns casos, de forma muito sigilosa. Temos processo de recuperação de soda, que até hoje não havia no processo para índigo. A soda contamina o tratamento de efluente e, com a reciclagem, melhoro mil vezes a qualidade do efluente. Para secar as peças, em alguns casos, a energia é grande. Hoje, nós fazemos sistema de baixo pick-up, que não é imersão, é espuma, spray, raclagem. Essa substituição é o pensamento eco. Isso é uma inteligência eco, uma cultura eco. Está na hora de começarmos a dizer que somos eco e ter orgulho daquilo que nós somos.

ITT: É o modelo que deve ser seguido pelo mercado?

Imaizumi: Não estou ensinando nada, somente dizendo o que faço. Gastamos recursos em tecnologias, pesquisas e testes até acertar! Hoje reciclamos muita água, estamos recuperando calor! A água quente que usamos já sai aquecida, com uso racional de energia devido a serpentinas. Fizemos um grande investimento com a troca de caldeiras. Acabamos de instalar uma nova que gasta 30% a menos de biomassa para produzir uma mesma quantidade de vapor. A questão é tecnologia. Tudo isso tem custo, mas é ecofriendly. O investimento deve vir, porém, com diferencial que atenda nossos valores. Temos um compromisso e temos orgulho de copiar as tecnologias que fazem bem, incorporar esses ideais. Um exemplo é que os telhados das fábricas passarão a ter painéis solares e produzir microenergias. Daqui a pouco, todas as nossas fábricas terão esse recurso e venderão energia. Eu quero ser uma empresa cada vez mais verde. O conceito de produto acontece naturalmente, mas agora é hora de falar a verdade, colocar os pontos. O produto torna-se consequência. Quando crio uma tecnologia para uma máquina, ela vai servir para todas as outras. Todos os setores serão beneficiados.

ITT: Essas tecnologias devem atrair ainda mais interessados em atuar na indústria, talvez criando um contato maior com a mão de obra especializada.

Imaizumi: O projeto mais correto de inclusão social e desenvolvimento econômico de áreas populosas e sem infraestrutura em todo o mundo é sempre introduzir um processo produtivo organizado, como é o caso da costura. Todos os países do mundo utilizam a costura como plataforma de desenvolvimento. Aqui no Brasil, não se acerta isso. Os governantes, os xiitas de diversos setores, não entendem: preferem que a população continue passando fome a gerar renda. O tripé da sustentabilidade não aceita menos do que os três pilares. O projeto Sertão - encampado pelo Rio Grande do Norte - tinha como patrocinador a Guararapes e foi lançado por água abaixo. O Ministério Público do Trabalho julgou que o sistema de trabalho baseado em sistemas cooperativados fere a legislação trabalhista. Então, a Guararapes disse: ok, se é ruim para o Brasil, farei em outro país. E assim perdemos essa oportunidade.

ITT: Isso também impacta negativamente no investimento de empresas brasileiras em atividades sustentáveis.

Imaizumi: O processo de tratamento químico seco e dos líquidos evoluiu muito nos últimos 50 anos. A indústria evoluiu, mas o Brasil só tem duas fibras: poliéster e algodão. E, além de tudo, o poliéster ainda está fragilizado. A indústria começa na fibra, e as bases de viscose estão à disposição. Outras fibras baseadas em leite, milho ou diversas outras possibilidades ainda são restritas. Não temos essa diversidade, o que vira marketing. Quando trazemos para o Brasil, tudo se inviabiliza. A cadeia começa com problemas na restrição de matéria-prima. Não dá para disputar no Brasil: nossas fiações são antigas. Estamos falando de máquinas de quase dois mil fusos e ainda empresas que utilizam máquinas de 30 anos atrás. O nível de sofisticação da mão de obra exigido é outro! Eu quero ser mais produtivo, pode até aumentar o número de mão de obra.

ITT: O que pode ser feito para melhorar a confecção?

Imaizumi: O governo precisa exonerar a cadeia da confecção. Precisa simplificar não para o Simples, mas para ser grande. Se a confecção morrer, a indústria morre. Na verdade, a confecção está ameaçada pelo varejo, que, com seu poder gigante, esmaga o fornecedor. A confecção não consegue crescer, ela vive no limite. Assim, criam-se os tubarões das confecções, que são as facções pequenas que não conseguem manter a qualidade. A produção precisa ser picada. O tecido roda o país para diversas confecções, depois precisa voltar para as lavanderias, e mais uma vez para etiquetar. Há custos porque ninguém quer ser grande ou organizado. O mundo está hipócrita, pois ninguém fala o que deve ser falado. A confecção é a indústria que mais emprega e ninguém a defende. Hoje, o dinheiro é eletrônico. O imposto único seria uma opção. Se taxássemos a movimentação eletrônica começaríamos a ter uma formalização das empresas, pois todos pagariam impostos. Este é um papel do governo ou do privado? Das duas instituições, mas, no privado, temos muitas agendas. As nossas associações não são representativas do ponto de vista da força, e os temas são sensíveis. Quando o governo vê que queremos exoneração, ele acredita que todos os outros setores também querem. Tem que partir do Governo essa mudança, entendendo nossa situação e decidindo nos proteger. Só teremos algo concreto quando alguém se sentar e analisar que empregamos um milhão e meio de pessoas e corremos o risco de morrer. Precisamos deixar de ser hipócritas.

ITT: Que mensagem quer deixar para a cadeia têxtil e para nossos leitores?

Imaizumi: Primeiro, que estamos revelando o que nós somos. Não é balela de marketing, são valores empresariais baseados na consciência do que somos na cadeia produtiva. Quando alguém traz um projeto, usamos um A3, onde colocamos numa folha deste tamanho o impacto, o payback, o plano de ação e as possibilidades. Para grande parte dos projetos, as justificativas internas são ligadas à sustentabilidade. Teremos menos consumo, diminuição de poluição, mais segurança, reciclagem, redução... Não é simplesmente financeiro: a parte econômica é consequência. Que mensagem queremos passar para o setor? Reconheçam as empresas como reconhecemos o consumidor da ponta que quer nosso produto. Estamos criando algo para atender a uma demanda do consumidor. Não somente um cliente, mas o mercado. Nossos produtos eco começaram há duas coleções e estávamos quietinhos, não vendemos nada, zero. No segundo ano, ampliamos as vendas, no terceiro mais ainda. E assim vamos. É um caminho sem volta. Sermos corretos sob todos os aspectos como seres humanos, empresa e sociedade. É parte do nosso DNA.

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Edição por: Gabriel Rajão
Fotos por: Vicunha
Publicado por ITT Press - International Top Trends - ed. 104

Data de publicação: 05/12/2016

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Representantes de 50 das mais de 600 revendas da Andrade Máquinas em todo o Brasil são esperados no maior evento do ano, realizado pela empresa, referência em distribuição de máquinas de costura no país: o prêmio Andrade & Sansei - Melhores do Ano, que será acontecerá na segunda-feira (9 de dezembro), em Guarulhos (SP).  2019-12-05 - Tags: alexandre herchcovitch premio andrade maquinas inovaçao moda record tv