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Moda colombiana cresce e enfrenta desafios

Jornalista Pilar Luna fala sobre os rumos da indústria de moda colombiana e os obstáculos que esta precisa superar para se firmar no mundo fashion.

Uma das jornalistas de moda mais influentes da Colômbia, Pilar Luna, editora da revista eletrônica Infashion e curadora da Bogotá Fashion Week, faz uma retrospectiva sobre as feiras do setor no país e comenta sobre o estágio atual e o futuro do mercado de moda colombiano. Pilar acompanha a indústria da moda desde o início, quando havia um estilismo mais arraigado e direcionado a um público seleto. Com a profissionalização do mercado e o intercâmbio promovido pelos eventos de moda, o país se integrou ao circuito internacional e hoje é um dos polos da indústria têxtil na América do Sul, juntamente com Brasil, Argentina e Peru. “A Colômbia é um país muito criativo, mas a questão dos negócios ainda é muito complicada. É preciso desenhar, criar, entender e estabelecer instrumentos para fomentar o comércio neste setor”, diz a executiva. Confira:

ITT Press: Como te parece a evolução da indústria têxtil e de moda na Colômbia através das feiras realizadas no país?

Pilar Luna: A parte técnica e industrial é dinâmica, pois os empresários do ramo têxtil possuem muito conhecimento de mercado, assim como os fornecedores de insumos (fios, aviamentos etc.) que participam da feira Colombiatex, que é voltada para a indústria. Mas, quando falamos de estilismo, vemos que a moda colombiana passou por um período de estagnação. ITT Press: Você se refere à capacidade de conciliar negócios com a arte de criar moda? Pilar Luna: Exatamente. Aqui havia um desprendimento dos estilistas e do mundo dos negócios, propriamente dito. Eram realizados muitos desfiles e shows de passarelas, mas não havia continuação dos negócios, ou seja, ações estruturadas para comercialização das coleções. Agora, o segmento de moda está mais organizado e, atualmente, temos vários estilistas que já são bem vistos internacionalmente, um grupo que já se faz presente nas grandes semanas de moda do mundo.

ITT Press: Você poderia citar alguns nomes?

Pilar Luna: Johanna Ortiz é a estilista que hoje vende seus produtos nas melhores plataformas fashion e nas lojas de Nova York. Então, o design colombiano ganhou muita visibilidade através dela. Outra estilista reconhecida mundialmente e que ajudou a divulgar a moda colombiana é Silvia Tcherassi. Além de Amélia Toro, que está em Paris. Temos também outros profissionais que estão trabalhando na França e, apesar de ainda não estarem nas passarelas, já têm seus próprios showrooms negociando com o mercado internacional.

ITT Press: Não como tendência, mas como negócio, certo?

Pilar Luna: Exatamente. Penso que isso é muito importante, pois se percebe que o mundo está atento à moda do nosso país por vários motivos, entre os quais, porque a Colômbia está na moda. Outro motivo é porque os estilistas colombianos encontraram um estilo e revelaram a identidade colombiana, e isto já é reconhecido no exterior. O artesanato é muito importante, e os estilistas conseguiram fazer a fusão entre o artesanato e o design, desenvolvido com muito orgulho de sua nacionalidade. Esta fusão é muito relevante, é o fator diferencial quanto à criatividade e estilismo, que também traz uma visão de negócios muito mais organizada. Este movimento se complementa com feiras como a Colombiatex e a Colombiamoda, realizadas anualmente, onde as pessoas podem conferir como funciona a indústria têxtil e o empresariado da Colômbia. Mas ainda falta estreitar mais o relacionamento com o têxtil. Por exemplo, eu conheço um pouco sobre o cenário brasileiro de moda e me parece que o mercado está muito bem conectado no mix de toda a indústria. Aqui ainda se trabalha de forma independente, enquanto no Brasil há mais integração da moda com a indústria têxtil.

ITT Press: Passeamos um pouco pelos shoppings e vimos muitas marcas novas. Este já é um resultado do trabalho que está sendo feito na Colômbia?

Pilar Luna: Sim. Essa é uma tendência, especialmente entre os millennials, que encaram as profissões de modo diferente das gerações passadas. Muitos jovens estão buscando ser estilistas ou chefs de cozinha, por exemplo. Há muitas pessoas que não são exatamente designers, mas empreendedores que querem deixar sua marca em um produto. Os jovens do novo milênio têm essa característica.

ITT Press: Como é a legislação colombiana em relação à abertura de empresas? É fácil abrir uma empresa no país?

Pilar Luna: Não, é difícil. Cobram-se muitos impostos, e as pessoas se queixam muito disso. Houve uma época em que se criaram alguns incentivos para a abertura de novas empresas, como a isenção de impostos por dois anos. Mas, atualmente, há muita discussão no setor, porque o governo quer que as empresas paguem mais impostos. Normalmente, só há incentivos quando se gera mais empregos; entretanto, os novos empreendedores não produzem empregos. Assim, não é fácil montar uma empresa na Colômbia. E, na área de moda, muito menos, porque para a política governamental o segmento de moda não é importante. Na realidade, a indústria têxtil não tem mais importância como antes. A Colômbia não tem matéria-prima, como, por exemplo, produção de algodão, lã, fibras sintéticas em abundância etc. Isto também é um desestímulo.

ITT Press: Ou seja, para produzir moda, a Colômbia depende das importações?

Pilar Luna: Sim. Dependemos da importação da matéria-prima, temos que comprar todos os insumos de fora. Por isso, a Colombiatex (feira têxtil realizada em janeiro) é muito importante para a indústria de máquinas, já que houve muito desenvolvimento nesse setor. Por outro lado, sinto que os empresários colombianos são tímidos para arriscar em design, em criatividade. Em sua maioria, permanecem fazendo o que lhes é cômodo, preferindo continuar com a moda clássica, de pouca inovação no estilo.

ITT Press: Mas como você observou, entre os jovens a coisa está mudando, não?

Pilar Luna: Sim. De fato há muitos jovens empreendendo, mas são empreendimentos pequenos. A plataforma In Fashion tem descoberto muitos jovens talentos colombianos, mas a movimentação de negócios é tímida ainda.

ITT Press: Há alguma ação de governo para incentivar o empreendedorismo na Colômbia?

Pilar Luna: O recém-eleito presidente da Colômbia, Iván Duque Márquez, tem uma nova política chamada de “economia laranja”. Supõe-se que essa nova política irá ajudar na abertura de novas empresas e que também as startups sejam beneficiadas com o programa. Mas, até o momento, não sabemos o que será feito ou como será implantada, exatamente. Nada teve início ainda. Todavia, já há uma grande polêmica por parte de outros setores em relação a esse projeto, já que o presidente Duque defendeu como uma de suas principais bandeiras a isenção de impostos para as indústrias criativas. Portanto, parece que esse tipo de empreendimento terá incentivos fiscais.

ITT Press: No Brasil, temos também um novo governo, que acabou de assumir em 2019. No Brasil, já há pressão para que existam empresas pequenas e mais eficientes, e que haja mais estímulo ao e-commerce. E na Colômbia, como se move o mercado?

Pilar Luna: Aqui ainda não está claro se devemos fazer o mesmo, mas a venda por e-commerce existe em alguns nichos. Há muita gente que começa um novo negócio vendendo por meio do Instagram com êxito. Há também uma plataforma internacional chamada Moda Operandi (www.modaoperandi.com), em que o design colombiano mais “top” se faz presente. Lá é possível encontrar vários estilistas colombianos que divulgam e comercializam seus produtos.

ITT Press: E com relação ao aumento na importação de produtos chineses? Isso não está atrapalhando um pouco a cultura têxtil, a cultura da moda colombiana?

Pilar Luna: A partir da chegada dos chineses, obviamente, a indústria interna caiu muito. Todos sabem que produzir na China é muito mais barato, e algumas empresas confeccionistas colombianas foram produzir lá. Mas as grandes indústrias ainda continuaram fabricando aqui. A Colômbia se caracteriza pela confecção bem-elaborada. Não somos fortes na produção têxtil, mas temos confeccionistas de moda pronta de qualidade. Na Colombiatex, por exemplo, é impressionante o que se movimenta na área de jeans e moda à pronta-entrega. É um comércio atacadista massivo. Donos de pequenos pontos de venda e boutiques de todo o país chegam à feira bem cedo para comprar as coleções e depois vender em suas lojas. São conhecidos como “madrugadores”. E quase tudo que compram é preferencialmente confeccionado na Colômbia, cerca de 90%, posso dizer.

ITT Press: E quanto à sustentabilidade? Como está o mercado colombiano neste quesito?

Pilar Luna: Creio que o consumidor foi levado a ver que há uma cultura de produtos diferenciados, e está exigindo mais qualidade e preço justo. Além disso, há a questão da sustentabilidade - o que acarreta mais responsabilidade para as marcas em relação ao planeta e ao ser humano. Nós, colombianos, estamos apenas no início nesta questão de marcas sustentáveis. Muitas empresas divulgam intenções, mas, de fato, sustentáveis são poucas.

ITT Press: O sindicato de confecções colombiano nos falou sobre uma feira em Bogotá. Qual o perfil deste evento?

Pilar Luna: Trata-se de San Victorino. Não é uma feira de moda, mas de confecções em geral. São produtos de massa que movem a indústria. Este setor na Colômbia cresceu muito. Se você for lá, ficará impressionada. Mas eles já começaram a ter muitos problemas devido ao comércio de produtos chineses e ao contrabando.

ITT Press: As entidades, as associações do setor produtivo na Colômbia, têm reagido ao comércio desleal?

Pilar Luna: Aqui houve um movimento pró-Colômbia, pró-exportação, e até se criou uma campanha da marca Colômbia, mas este movimento não foi consistente nem constante.

ITT Press: Qual é a expectativa dos consumidores e dos empresários colombianos em relação ao mercado de moda e ao governo do presidente Iván Duque?

Pilar Luna: Creio que o consumidor terá uma oferta maior de designers de moda e maior estímulo ao consumo de moda colombiana. Isso está ajudando na visibilidade da indústria de vestuário do nosso país e de seus empreendimentos na área. Acredito, porém, que nos falta cultura de planejamento de produção. Uma questão, por exemplo, é a padronagem, e as marcas não sabem como resolver. Não existe um padrão de tamanhos das peças. Penso que isso é algo que se deve melhorar muito, porque é um fator muito importante tanto para o mercado nacional como para o mercado externo. Por exemplo, se você for à Zara, sabe que tamanho comprar, qual fica bem para você, e não precisa de ajustes. Aqui, cada marca tem tamanhos diferentes. Com relação ao governo, parece que o ponto principal é a “economia laranja”, e as startups terão protagonismo. Desta forma, as pessoas estão buscando produtos diferenciados e que tenham responsabilidade com o planeta. Creio que esses são os grandes desafi os atuais. Os empresários colombianos também começam a buscar por inovação, pois, se não se envolverem nisso, não fi carão bem posicionados no mercado.

ITT Press: Há uma pressão global para adoção da indústria 4.0 na confecção, onde se reduza a necessidade de mão de obra e substitua os processos por sistemas autônomos, dinamizando a produção. O que te parece?

Pilar Luna: Acho um assunto muito interessante, mas aqui na Colômbia há muitos empregos informais no setor de moda. E agora estamos discutindo uma questão tecnológica, onde nem sequer os empregos foram normalizados e já pensam em substituir a mão de obra por máquinas! De fato, no mundo há de se otimizar os processos de produção. Mas eu, particularmente, serei sempre uma grande defensora do ser humano. Portanto, para mim, a indústria 4.0 é um pouco preocupante. Amo a arte da costura, apesar de não costurar. Acho um processo lindíssimo. Suponho que no Brasil seja assim também. Aqui, em qualquer bairro colombiano, você encontrará uma costureira. É um ofício passado de geração para geração. É uma tradição. São histórias muito lindas.

ITT Press: Tendo defendido que se mude o nome “costureira” para operadora de costura, para valorizar o profi ssional.

Pilar Luna: Óbvio. Mas, como o mercado é tão informal, creio que dentro da política de governo deve existir a formalização dos trabalhadores primeiro. Porque a maioria das costureiras são mães de família. Sabemos que a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco e, sendo assim, os operários são os que terminam perdendo o trabalho, pois não há uma política de formalização. Quando você me perguntou sobre o novo governo colombiano e políticas de Estado, digo: uma empresa, quando contrata uma pessoa, tem que pagar, além do salário, uma porcentagem alta em impostos. Então, para economizar, muitas confecções optam por contratar empresas terceirizadas, não tendo que pagar seguro social e plano de saúde para seus trabalhadores. Esta precarização preocupa.

ITT Press: Não é um processo sustentável de longo prazo.

Pilar Luna: Exatamente. Temos que fazer com que a indústria seja justa e viável para todos. Mas isso é um idealismo, porque a maioria dos empregadores não vê desta maneira. Eu sempre acreditei muito na Colômbia, no meu país, mas a verdade é que agora estou um pouco desencantada, porque houve muitos desvios, muita corrupção política, que acaba gerando violência, narcotráfi co e outras mazelas. Então, estou um pouco pessimista com o futuro. O povo colombiano é muito trabalhador e criativo, mas o que acontece é que os impostos que pagamos são roubados. Todavia, devemos manter esperanças de que o país melhore.

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Edição por: Maria José de Carvalho
Publicado por ITT Press - International Top Trends - ed. 113

Data de publicação: 05/04/2019

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