Ponto de Vista: Alexander McQueen em Nova York
Palco de algumas das mais renomadas exibições de moda no mundo, a cidade de Nova York recebe agora uma memorável mostra em homenagem ao grande estilista Alexander McQueen. A exibição “Savage Beauty” fica em cartaz até 31 de julho de 2011, no Metropolitan Musem of Art, em Nova York.
Imperdível não só pelo grande acervo, que conta com mais de cem peças e setenta acessórios, criados ao longo dos 19 anos de carreira do estilista, mas também pelo cuidado com que a curadoria teve em emergir o visitante no mundo imaginário de McQueen, suas temáticas e inspirações para cada coleção. As galerias (sete no total) trazem as diversas fases do estilista, desde sua coleção de formatura na Central Saint Martins, em 1992, até o último desfile assinado por ele, que aconteceu logo após seu falecimento, em fevereiro de 2010.
A exposição, que foi organizada pelo The Costume Institute e conta com peças do arquivo de McQueen, em Londres, do arquivo da Givenchy, em Paris, bem como coleções particulares, celebra as mais extraordinárias contribuições de McQueen, que desafiou e expandiu a compreensão da moda além da utilidade de uma conceitual expressão de cultura, política e identidade.
As Galerias de Savage Beauty
Ao entrar na exposição, o visitante se depara com dois manequins, que representam fortemente os temas e ideias que McQueen revisitou em toda sua carreira: os opostos (a vida e a morte, claro e escuro, predador e presa, homem e máquina). Em seguida, um roteiro de galerias que transmitem, principalmente através das temáticas desenvolvidas, fielmente, as fases e temas de inspiração do estilista. Cada galeria foi desenvolvida de modo a aguçar os sentidos do visitante, transmitindo a fundo o imaginário de McQueen em cada etapa de sua carreira.
A Alma Romântica (The Romantic Mind)
A primeira, das sete galerias, teve inspiração no primeiro atelier de McQueen, em Hoxton Square. Segundo o curador da mostra, Andrew Bolton, McQueen era um costureiro notável, capaz de canalizar as habilidades de seu ofício, mas também de usar a moda como veículo para expressar ideias complexas e conceitos.
“O que estou tentando trazer para a moda é uma espécie de originalidade", disse McQueen. O estilista expressou essa originalidade fundamentalmente através de seus métodos de corte e construção, que eram ao mesmo tempo, inovadores e revolucionários. Sua genialidade foi percebida logo em sua primeira coleção, desenvolvida para a formatura no curso de Fashion Design MA na Central Saint Martins College of Art and Design, em Londres, intitulada de Jack the Ripper Stalks His Victims (1992). Já formado, desenvolveu a coleção Taxi Driver (outono/ inverno 1993–94), onde lançou as “bumsters pants”, calças com design muito abaixo da linha do quadril.
A abordagem de McQueen na moda combinava a precisão e as tradições da alfaiataria, corte e costura e desenho de moldes com espontaneidade e improvisação, característica que se tornou ainda mais presente depois que assumiu o cargo de diretor criativo da Givenchy em Paris (1996 a 2001). É esta abordagem, ao mesmo tempo rigorosa e impulsiva, disciplinada e irrestrita, que sustenta a singularidade de McQueen.
A galeria apresenta ao público as primeiras inspirações e temáticas de McQueen, que era tão confiante em suas formas e silhuetas, que permaneceram relativamente consistentes ao longo de toda sua carreira.
O Gótico (Galerias Romantic Gothic e Cabinet of Curiosities)
Um dos temas mais predominantes e permanentes no trabalho de McQueen foi o gótico, especialmente o lado obscuro do século XIX, na era vitoriana. "Há alguma coisa... tipo Edgar Allan Poe (escritor norte americano do século XVII), profunda e meio melancólica sobre minhas coleções ", observou McQueen, que muitas vezes se auto intitulava como “O Edgar Allen Poe da moda”.
Muitas das peças eram inspiradas no culto da morte, povoadas por personagens associados ao conceito literário do gótico, como vampiros e anti-heróis presentes, em especial, nas coleções Dante (outono/ inverno 1996-97), Supercalifragilisticexpialidocious (outono /inverno 2002-03) e Anjos e Demônios (outono/ inverno 2010-11).
Como o estilo gótico vitoriano, que combina elementos de horror e romance, as coleções McQueen refletiam muitas vezes opostos como vida e morte, luminosidade e escuridão. Seus desfiles eram placo também de forte intensidade emocional. A relação entre vítima e agressor era essencialmente evidente, em especial, nos acessórios. "Eu... gosto do acessório pelo seu aspecto sadomasoquista", postura claramente evidente na galeria "Cabinet of Curiosities", que centra as criações fetichistas produzidas por McQueen em colaboração com um número de designers, incluindo Dai Rees, Philip Treacy e os joalheiros Shaun Leane, Erik Halley e Sarah Harmarnee.
Cabinet of Curiosities é, de certa forma, o coração e a alma da exposição, em termos do fato de que se vê a amplitude da imaginação de McQueen nas peças em exposição e objetos que o inspiraram. Todos os grandes temas que o visitante vai enfrentar durante toda a exposição estão muito presentes nesta galeria particular. Nela também se encontram os momentos mais emblemáticos das passarelas do estilista.
O Nacionalismo (Galeria Romantic Nationalism)
A galeria apresenta McQueen como um incrível contador de histórias, com coleções baseadas em narrativas, em especial com foco no orgulho de sua herança escocesa e também seu amor à história britânica. Essas coleções traziam um tom profundamente autobiográfico. Certa vez, quando questionado sobre o que suas raízes escocesas significavam, ele respondeu: "Tudo".
O orgulho nacionalista de McQueen é bastante evidente nas coleções Highland Rape (outono/ inverno 1995-96) e Widows of Culloden (outono/ inverno 2006- 7). Ambos exploraram a turbulenta história política da Escócia, trazendo à tona mensagens politicamente desafiadoras.
Apesar de seu declarado sentimento nacionalista à Escócia, McQueen era intensamente ligado à Inglaterra, em especialmente à cidade de Londres. "Londres é onde fui criado. Onde está meu coração e onde eu consigo minha inspiração". Seu profundo interesse na história da Inglaterra foi bastante evidente, na coleção The Girl Who Lived in the Tree (outono/ inverno 2008-9), um conto de fadas sonhador inspirado no jardim da casa de campo de McQueen.
O Exotismo (Galeria Romantic Exoticism)
A sensibilidade romântica de McQueen expandiu seus horizontes imaginários não só no tempo, mas também geograficamente. Tal como tinha sido para os artistas e escritores românticos, o fascínio pelo exótico foi fundamental em seu trabalho. Suas inspirações vinham da Índia, China, África, Turquia e todos os lugares que despertaram sua curiosidade. O Japão foi especialmente significativo para ele, tanto na área temática quanto estilística. O quimono, por exemplo, era uma peça que ele reconfigurou inúmeras vezes. "Meu trabalho será tomar elementos do bordado e artesanato de países de todo o mundo. Vou explorar seus ofícios, padrões e materiais e interpretá-los à minha maneira”.
O exotismo de McQueen foi muitas vezes expressado através dos opostos. Esse foi o caso da coleção It's Only a Game (primavera/ verão 2005), um espetáculo encenado como um jogo de xadrez - cenário inspirado no filme Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) - onde armou o Oriente (Japão) contra o Ocidente (América). Filmes muitas vezes inspiraram McQueen, assim como a arte contemporânea. (primavera/ verão 2001) apresentou uma série de artigos de vestuário exóticos.
O Primitivismo (Galeria Romantic Primitivism)
Ao longo de sua carreira, McQueen se voltou à temática do primitivismo diversas vezes. Tema de sua primeira coleção depois de formado, Niilismo (primavera/ verão 1994), trouxe peças revestidas em lama, conceito repetido na criação de Eshu (outono/ inverno 2000-2001), coleção inspirada na religião Yoruba. It’s a Jungle Out There (outono/ inverno 1997-98) também retrata o primitivismo, ao apresentar uma reflexão sobre a dinâmica do poder na relação entre predador e presa. As reflexões de McQueen em relação ao primitivismo eram frequentemente representadas em combinações contrastantes, como moderno e primitivo, civilizado e incivilizados.
O Naturalismo (Galeria Romantic Naturalism)
A natureza era a maior, ou pelo menos, a mais duradoura influência sobre McQueen. Também foi um dos temas, se não o central, do romantismo. Muitos artistas do movimento romântico apresentavam a própria natureza como uma obra de arte. McQueen compartilhou e promoveu este ponto de vista em suas coleções. Para o estilista, como também para os românticos, a natureza era um mundo de ideias e conceitos, filosofia claramente refletida em Plato’s Atlantis (primavera/ verão 2010), a última coleção realizada integralmente pelo designer. Inspirada em Charles Darwin, A Origem das Espécies (1859), a coleção apresentou uma narrativa que não está centrada na evolução da humanidade, mas em sua “devolução”. O desfile foi transmitido ao vivo, numa tentativa de fazer da moda um diálogo interativo entre criador e consumidor.
Por todas as suas contribuições, a exibição é mais que uma homenagem ao estilista Alexander McQueen. É uma grande oportunidade de mostrar ao público que seu design constituiu o trabalho de um verdadeiro artista, cujo meio de expressão foi a moda.
* quem quiser pode conferir trechos dos desfiles de McQueen através do link abaixo:
http://blog.metmuseum.org/alexandermcqueen/video/
ALEXANDER McQUEEN – Savage Beauty
Onde: The Metropolitan Museum of Art, 1000 Fifth Avenue na 82nd S
Terça a quinta e domingo: das 9h30 às 17h30/ Sexta e sábado: das 9h30 às 21h
fechado às segundas-feiras e feriados
Quando: até 31 de julho de 2011
* a entrada (preço sugerido) U$ 20,00
Silvia Colaianni é formada em marketing e especializada em gerenciamento estratégico pela UCF nos EUA. Atua como consultora de comunicação estratégica na RM PRESS, agência de Assessoria de Imprensa e Relacionamento com a Mídia, que presta consultoria de comunicação em todo país.
silvia.colaianni@rmpress.com.br
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Por: Silvia Colaianni
Consultora de Marketing e Comportamento
Data de publicação: 19/05/2011











































